A floresta é, sem dúvidas, um dos elementos mais característicos da região amazônica. Não à toa, fomos chamados por anos de pulmão do mundo. Ainda que esta não seja a real intenção de Rodrigo Aquiles, “Tu Oro”, filme que este dirige e roteiriza, a personifica e a torna o elemento-chave da sua trama.
Somos levados ao Amapá no século 19, território disputado pelo Brasil e pela França e acometido pela corrida do ouro. Aquiles transpõe esse conflito de forma pontual em diversos momentos no decorrer da narrativa, mas principalmente por meio de dois aspectos que se destacam: o par central da trama e a linguagem. Dessa forma, “nativos versus colonizadores” torna-se também uma discussão latente dentro da mensagem que “Tu Oro” carrega.
Todos os elementos presentes em tela dialogam para nos imergir dentro deste conflito: a trilha sonora, por exemplo, remete tanto a elementos tribais – por meio do uso da percussão – quanto ao som da mata, enquanto a fotografia em plano aberto evidencia imagens poéticas que ilustram a beleza da natureza amazônida. E é nesse meio que ela toma o protagonismo para si e é decisiva na questão territorial.
Temos em tela um nativo – com características físicas e figurinos que nos lembram os ribeirinhos amazônicos – que precisa sobreviver diante de seu aprisionamento por um francês. Os dois discutem ora predominantemente no idioma do colonizador, ora com interlocuções nos dois idiomas. Apenas a interpretação de Cláudio Silva, como o nativo, não consegue sustentar esse entendimento do emaranhado que há entre eles. Não ajuda, também, que, no primeiro momento, a captação de som deixe a desejar até mesmo a assimilação do que é dito em português.
Tanto os elementos técnicos quanto as escolhas narrativas abrem caminho para que a natureza seja então a grande protagonista de “Tu Oro”. Enquanto a compreensão da linguagem falada possui ruídos, os planos fechados sobre a natureza nos ofertam uma percepção sobre como esta também é um personagem ativo dentro do conflito. Rodrigo Aquiles consegue criar a ambientação que Ridley Scott ensaiou em seu “Alien: Covenant” – uma natureza claustrofóbica, escura e que sussurra imperceptivelmente para levar aquele que não pertence a sua terra à loucura; tornando-a um elemento de terror espacial.
Dessa forma, a titulação do filme também se conecta a flora amazônica, uma vez que Joaquim (Cláudio Silva) recorre a Jurema – protetora da natureza, filha de Tupinambá – para atravessar o conflito. A sua oração mais uma vez reivindica a força dos encantados e sua pungente presença na cultura da floresta.
“Tu Oro” reúne de forma orgânica elementos enriquecedores da nossa cultura. Por um lado revive um conflito histórico ainda pouco abordado no cinema nacional – e nas artes de forma geral -, por outro, evidencia como os parâmetros regionais seriam/são capazes de vencer o colonizador. E isto é o que há de mais forte no filme de Rodrigo Aquiles.












