O sangue que atormenta as noites de Edgar Wilson (Selton Mello) ainda é fresco. Sem conseguir dormir, ele carrega um trauma de toda uma vida. É com esse mote que o diretor Marco Dutra faz de “Enterre Seus Mortos” um filme de horror com ecos de sci-fi e faroeste e influências visíveis em exemplares recentes do cinema de gênero, como as obras de Jordan Peele e Edgar Wright, além do brasileiro (e carpenteriano) “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho.
Dividido em sete capítulos, o filme reflete uma busca quase universal por religiões ou seitas – o que você preferir – como fontes de salvação em uma sociedade condenada e adoecida. O ópio do povo aterroriza Edgar na mesma medida em que fascina Nete (Marjorie Estiano, em nova parceria com o diretor).
Quando aposta na ironia, “Enterre Seus Mortos” é um filme bem mais instigante. Prova disso é a forma com que o filme leva os relacionamentos de Edgar, um homem que detesta e tem trauma de religião, mas tem um caso com uma mulher que busca a salvação por meio de uma doutrina milagrosa. Ao mesmo tempo, ele também é colega de quarto de um ex-padre e os questionamentos sobre os temas que o afligem são recorrentes.
Dutra faz um horror social que coloca gêneros em confronto de forma que causa repulsa ao mesmo tempo que diverte – exemplo disso é como as repetidas referências a Titanic vão escalando. Pena que o filme sofre daquele famoso mal que é querer explicar e dar sentido demais, o que faz com que ele perca um pouco do fôlego ao final – aí, o tormento coletivo parece tão prolongado quanto o trauma do personagem de Selton Mello.












