Em 1995, Alanis Morissette lançou um videoclipe para sua canção “You Learn”. Nele, a cantora percorre por alguns cenários cotidianos, causando caos na maioria deles, mas sem se importar muito com a situação. De uma forma um pouquinho mais abissal, é mais ou menos isso que acontece em “Week-end à Francesa”.
Escrito e dirigido por Jean-Luc Godard, o longa traz um casal burguês que sai em uma viagem de fim de semana ao interior da França, com o objetivo de reclamar uma herança familiar. No caminho, eles se deparam com um engarrafamento gigantesco, vagando em um cenário de violência crescente, que inclui acidentes de trânsito, mortes e tudo de pior que você possa imaginar.
Disruptivo. É a palavra que eu usaria para definir Godard. Um dos expoentes mais notórios da Nouvelle Vague, o autor e diretor foi expandindo cada vez mais e mais o molde do que é considerado cinema, e do seu próprio aporte artístico, culminando em “Weekend”, no que pra mim, é o ápice do seu experimentalismo político-surrealista.
Mireille Darc e Jean Yanne dão vida ao casal que acaba por realizar uma espécie de peregrinação, por mais ou menos uma semana, até o interior, onde se deparam com as mais inusitadas situações e figuras. Observo a progressão da violência durante a jornada do casal, que começa com uma simples briga de trânsito vista da sacada, culminando com uma sucessão grotesca de banho de sangue na floresta.
Eles partem em uma viagem por rodovias repletas de caos. Carros incendiados, colisões, corpos desfalecidos e ensanguentados estirados no asfalto, cadáveres que sequer chocam, tendo em vista que o casal está focado no motivo que os leva ao interior, sem tempo para se importarem com o coletivo, apenas para o seu “eu” e seus bens materiais. A ambientação em estradas, tráfegos e carros, um dos principais objetos de consumo e definição de status do homem moderno, é utilizado por Godard para desenhar a decadência social dos mid-60s, a partir dos exageros de uma sociedade consumista e de seu ferrenho inimigo, o capitalismo.
A estrada é basicamente uma personagem no filme. O casal parece estar preso numa esteira, ambos andam, correm e não saem do lugar. Eles têm um encontro com o político revolucionário Saint-Just, a escritora Emily Brontë e personagens de Lewis Carroll, que culmina no início da brutalidade e desumanização do resto que ainda existia no corpo dos dois. Daí é só ladeira abaixo pra eles – e de certa forma pra história, que acaba entrando numa espiral de situações que já deixam de ser brutais e chocantes, pra serem discursos enfadonhos que exalam pseudo-intelectualidade. “Que filme ruim, tudo o que fazemos é encontrar gente doida” fala o protagonista em determinado momento, num daqueles jogos metalinguísticos de Godard, um momento de autorreflexão também, já que nesse ponto, o longa já perdeu um pouco de propósito e ritmo, dando a impressão de que só ligaram a câmera e “seja o que deus quiser”.
Diante dessa loucura narrativa, percebemos que “Week-end à Francesa” também não deixa de representar uma reinvenção do cinema de Godard. Em determinado momento, enquanto o casal faz uma curva em alta velocidade, a película literalmente se desfragmenta. É o diretor materializando a desfragmentação não só de seu cinema, mas da arte e sociedade em geral. Na sequência da curva, Corinne (Mireille Darc) chora pela perda de sua bolsa Hermès. Ok, é uma bolsa cara, mas o que tem de mais nisso? Acontece que ela chora a perda após seu carro colidir com outro, provocar um incêndio e corpos ensanguentados e em chamas. É um retrato de uma sociedade mergulhada em futilidade e números, nada muito diferente de hoje em dia. Godard mira com um olhar anárquico para o futuro.
Outro aspecto que deve ser destacado são as conquistas técnicas do filme. “Week-end” traz um Godard em pleno domínio de seus recursos como encenador, comprovado pelos longos e coreografados planos-sequência, como o célebre engarrafamento na estrada. Mas ainda sobram críticas para o maltrato explícito aos animais visto em tela. São imagens hiperrealistas e extremamente grotescas, que poderiam ser evitadas tendo em vista os recursos técnicos disponíveis pro longa. Após fechar uma rodovia e explodir centenas de carros, certamente o problema não foi orçamento, mas falta de caráter e sensibilidade. Quando ele falha e perde o rumo no roteiro, sua câmera está para amparar com o apocalipse multicolorido visto na tela. Godard continua a experimentar o artpop que já vinha explorado em “Made in USA” (1966), contrastando com a violência e com sua própria filmografia anterior, que costumava ser preto e branco. É mais um ponto de ruptura a ser observado em sua obra.
Após andarem, correrem, serem assaltados, espancados, estarem enlamaçados e Corinne infelizmente sofrer algumas violências, o casal chega ao interior, onde já completamente desumanizados, cometem mais barbáries ao não completarem seu objetivo. E retornam a estrada, somente para serem sequestrados por uma gangue de hippies. Após uma odisseia de pesadelo de horrores, Corinne devora no último plano, o róprio marido. O que resta à sociedade, Godard propõe, é voltar para o mato e devorar uns aos outros.
Anárquico e irreverente, e com os dois pés no surrealismo, Godard retrata uma França sucumbindo a um estado de barbárie desumanizada, restando somente retornar a pré-civilização. O mundo voltava ao fundo do poço. Era hora de se reinventar e iniciar uma nova revolução.















