Com direito a conflitos morais e explicitamente físicos, Euphoria finalmente volta para sua essência caótica e impactante. O terceiro episódio é capaz de alinhar as narrativas já estabelecidas ao belo visual, abraçando totalmente o estilo de novo faroeste.

Seguindo a premissa de contar o passado das personagens conforme a trama avança, agora é a vez de Jules (Hunter Schafer) protagonizar o passar dos anos. Como muitas transexuais, ela cai no lugar comum de prostituição, mesmo que isso seja estilizado pela série com o título de sugar baby.

A trajetória da personagem é essencial para dar uma nova roupagem à série e é carregada de simbologias a fim de revelar subtramas. Na perspectiva de Jules, a vida como sugar baby é prática, fácil e sólida, entretanto, seu primeiro frame do episódio faz o alerta: um rasgo vermelho na tela pronto para tomar conta de todo o quadro que Jules pinta, tal qual segue os contornos de sua vida como descobrimos nos minutos seguintes.

Mais ainda, mesmo nas cenas incômodas, as quais não gostaríamos de ser espectadores, Jules é vista como um produto imóvel, dentro de uma embalagem. Algo reforçado por seu visual na ocasião festiva do casamento sendo vista numa roupa que pouco a veste, parecendo um presente mal embalado ou mesmo, violado.

Apesar da vida estabelecida durante o episódio, ao final, quando ela chega em sua cobertura chiquérrima carregando o buquê vivo e colorido – símbolo da adolescência que ela acabou de relembrar – ela o abandona como único resquício de cor no frívolo apartamento. Essas escolhas reforçam dilemas morais da personagem sobre a vida que esperava ter na faculdade de artes e a realidade à qual se imputou.

Uma escolha irônica e, considero eu, esperta, da produção é colocar a personagem com uma peruca muito parecida com seu cabelo, como se fosse quase um acessório inútil. Para mim, isso reforça o aspecto de que Jules cria uma persona, veste a peruca como uma máscara, a qual ela é vista sem somente com Rue (Zendaya), para quem ela não precisa performar.

Sobre essa temporada, o criador Sam Levinson afirma ser um western moderno, mas essa ideia demorou para engrenar na narrativa. No sentido estético o deserto está presente desde os primeiros minutos, os detalhes em figurinos e até mesmo o clube de striptease como um cenário de saloon antigo reforçam aspectos do gênero. Entretanto, é com o diálogo claro sobre índios e caubóis que a trama desenha na tela os aspectos interiorizados de faroeste a serem retratados.

Isso resgata sentimentos muito próprios da primeira temporada como o senso de solidão, hesitação, desconforto e perigo. Dessa vez tudo isso se junta ao fato dos personagens estarem entrando numa terra sem lei: morte de animais, venda ilegal de armas, contrabando de drogas, violência física extrema e, claro, belas mulheres dançando para embelezar os horrores vistos.

Sobre o grandioso casamento de Nate (Jacob Elordi) e Cassie (Sydney Sweeney), ele é carregado de pequenas ironias, preparando um campo minado, onde a toda hora alguém pisa numa bomba. Primeiramente ouvimos Tchaikovsky com a valsa das flores, enfatizando o aspecto primordial para Cassie em manter um casamento florido. Esse recurso visual reforça a beleza, alegria e contraste do evento, entretanto, cansa a vista, é exagerado e cria um aspecto de sufocamento da história – algo que os recém-casados vivenciam.

É claro que o diretor debocha abertamente dessa união perfeita, afinal, casamentos naturalmente são bregas, mas aqui todas escolhas apontam para o demodê, para o exagero que chega ao ridículo. Esses aspectos visuais em contrapartida a expressão facial e física do casal entrega desconforto mesmo antes da cena explícita ao final do episódio.

Cassie se destaca bem com o choque entre expectativa do dia perfeito e a realidade que se enveredou, todas suas ações apenas reforçam a superficialidade já vista na personagem. Já Nate segue numa espécie de redenção plausível, mas cansativa para o personagem.

Novamente existe apenas um vislumbre do antigo Nate, mas ele é deixado de lado para o homem apaixonado e provedor que ele promete ser. Essa construção aponta para algum momento de colapso e retorno a seus antigos comportamentos – o que eu espero acontecer pelo enriquecimento da narrativa.

A trama é tão perversa com Cassie e Nate que os leva ao lugar de mocinhos injustiçados – algo inconcebível em anos anteriores. Ainda tivemos o benefício de uma trama recheada de cenas memoráveis, saindo do status de uma temporada apática para criar verdadeiro impacto no imaginário do público, como é esperado de Euphoria. 

Embora Rue seja muito mais uma figurante nesse episódio, a presença de Zendaya continua instigante e serve como ponto de mediação entre os núcleos. Na cena marcante entre os coadjuvantes Laurie (Martha Kelly) e Bishop (Darrell Britt-Gibson) é impossível esquecer que Rue também está presente e a atenção do espectador se volta para saber em como os desdobramentos podem impactar a personagem.

Esse é um episódio essencial para a temporada por conectar a construção de personagens até então e seus possíveis desdobramentos. Ele volta a mostrar Rue encurralada, os sentimentos do ensino médio mal resolvidos com Maddy e reafirma a premissa dos jovens buscando seu lugar, mesmo que isso os leve ao escárnio.

Com esse desempenho acima da média, é possível definir que Euphoria ainda consegue impactar, entreter e trazer o público de volta semana após semana. Mas, vindo de dramas tão relevantes e densos com Rue, é necessário questionar: a série ainda é capaz de emocionar?