Ursula K Le Guin em seu texto sobre a teoria da cesta afirma que a melhor história a ser contada são as lifes stories, ou seja, aquelas que acontecem no cotidiano. Ashgar Farhadi parece tomar esse encaminhamento da escritora de ficção científica norte-americana para contar sua história liderada por um elenco estelar francês.
O cineasta iraniano volta a Cannes e a um filme em idioma francófono após “O Passado”, de 2013. Dessa vez, acompanhamos a personagem de Isabelle Huppert, uma escritora que observa e projeta a vida dos seus vizinhos para escrever suas narrativas. Dessa forma, Farhadi tem como fio condutor central de “Histórias Paralelas” o poder da imaginação e a força de Virginie Efira; uma vez que apesar de Huppert ser a grande estrela e a melhor atriz em cena, é Efira a quem a câmera e os personagens desejam desnudar a qualquer custo.
Isso acontece porque desde o primeiro momento em que a atriz belga surge em cena – seja com os cabelos grandes e escuros ou médios e loiros -, os personagens giram em torno de especular quem ela é. E como se isso não fosse o suficiente, criam histórias paralelas que expliquem e também ressaltem a curiosidade que desperta neles. Para Sylvie (Huppert), ela é a personificação da mãe; já para Adam (Adam Bessa), ela é a mulher lasciva que se relaciona com dois homens ao mesmo tempo; enquanto Théo (Pierre Niney), a vê como uma mulher que pode retribuir seus desejos ocultos. Independente de quem seja o personagem, todos projetam nela seus desejos e a imaginação, elemento caríssimo a Farhadi aqui.
Entre as discussões que o iraniano busca levantar o poder da imaginação está na centralidade, seja sua aplicação sobre a vida dos que a utilizam como fonte de renda, seja seu domínio sobre aqueles que se sustentam nela para que seus desejos obscuros tomem forma, mostrando ainda o uso dos sentidos nesse processo. O roteiro busca aplicar essa percepção em dois sentidos do corpo humano: a visão e a audição. O primeiro por meio da observação intensa que Adam e Sylvie praticam e o segundo com duas frentes: uma envolvendo Sylvie que não escuta bem e por isso usa um aparelho o qual amplifica sua audição e a outra pelo estúdio de produção audiovisual sonoro em que os personagens de Cassel, Niney e Efira trabalham.
Assim, “Histórias Paralelas” bebe da metalinguagem para contar uma narrativa em que os sons e as palavras são a base que guiará o espectador. Por um lado, as palavras indicam o quanto a realidade é chata e repetitiva e o inventivo escrito é muito mais interessante de acompanhar. Nessa esteira, é curioso a utilização da leitura de diário para indicar como funciona realmente o processo de escrita e como certos produtos literários fazem com que conheçamos realmente quem são as pessoas por trás das palavras. Já em relação ao som dos passos forjados no estúdio, é curioso a metáfora utilizada para evidenciar como eles se confunde até se ajustarem e imitarem os sons da realidade, uma ligação direta a maneira como a imaginação é empregada no quadro apresentado por Farhadi.
Nesse processo, no entanto, o filme do diretor iraniano se perde em um emaranhado de situações que vão crescendo como uma bola de neve, sem encontrar uma saída efetiva ou trabalhar a causa e consequência das ações dos seus personagens. Farhadi que é um mestre em construir dramas humanos, em “Histórias Paralelas” parece não saber para onde está indo. Claro, há uma ideia clara em vista: descobrir os limites para a exploração do desejo e curiosidade em relação a Nina (Efira), mas a custo de sacrificar todo o resto em meio a provocações humorísticas sobre situações do cotidiano e a escrever uma mulher cuja existência não importa desde que ela se encaixe nas projeções que fazem sobre ela.
Ao fim, “Histórias Paralelas” poderia ser um grande filme, mas ele frustra por se distanciar tanto da realidade que ele tenta se ancorar e ao mesmo tempo carregar uma imaginação fixada na mediocridade do desejo em que mulheres são feitas para serem observadas e projetadas. Uma triste posição para o cineasta e seu elenco estelar.














