Cinebiografias de artistas musicais frequentemente caem em uma armadilha formal: transformar a trajetória da figura retratada em uma colagem de videoclipes mal encaixados, nos quais os momentos musicais funcionam como respiros narrativos, mas raramente como parte integral da dramaturgia. Homem com H, dirigido por Esmir Filho, faz o caminho oposto. A música, aqui, não é pausa nem adorno: é extensão da alma, do corpo, da luta e da memória de Ney Matogrosso.
Desde a primeira cena, o filme estabelece que sua proposta não é apenas narrar a história de um ícone, mas mergulhar na energia que fez de Ney uma figura única na cultura brasileira. A interpretação de Jesuíta Barbosa é central para essa imersão. O ator não se limita a replicar trejeitos ou timbres: ele canaliza o espírito do intérprete com intensidade, evitando o pastiche e criando um duplo vibrante, pulsante, que transforma cada gesto em potência simbólica.
O roteiro e a direção compreendem que Ney Matogrosso não pode ser traduzido por uma sequência linear de eventos. Ele é um corpo em permanente reinvenção — político, andrógino, insurgente. Por isso, o filme assume um tom quase onírico, em que diferentes épocas se misturam e se atravessam, sempre retornando ao que há de mais essencial: o palco como espaço de libertação e enfrentamento. Cada performance musical, como Sangue Latino ou Vira Vira, carrega não apenas o som da época, mas também as cicatrizes e os desejos de uma trajetória marcada por repressão, desejo e transgressão.
Esmir Filho acerta ao não distanciar a câmera desses momentos. Ao contrário, ela se deixa levar pelas batidas, pelo suor, pelas cores e pelas luzes que envolvem o corpo de Jesuíta/Ney. A fisicalidade é central: o corpo como lugar de afirmação, dor, prazer e resistência. O espetáculo não está só na música — está na forma como ela se materializa nos movimentos, nos figurinos, no olhar. Jesuíta nunca resvala na caricatura; sua entrega é total, mas controlada, sempre em sintonia com a intensidade emocional de cada momento.
Ao final, Homem com H não é apenas uma biografia musical. É uma experiência sensorial e política. Um filme que entende o artista como força viva, que não cabe em cronologias, mas que se expande no tempo e no corpo. Esmir Filho e Jesuíta Barbosa constroem, juntos, um retrato corajoso e fiel não apenas de quem Ney Matogrosso foi, mas daquilo que ele representa até hoje: um grito de liberdade em pleno palco — e fora dele.














