Baseado na história real de Tracie Laymon, que também assina o roteiro e a direção do longa-metragem, Um Pai para Lily aborda a vida de Lily Trevino (Barbie Ferreira), uma mulher que possui uma relação conturbada com seu pai, Bob (French Stewart), um homem egocêntrico e insensível, que aliena completamente sua conexão parental com a filha. Ao longo do filme, vamos descobrindo as vulnerabilidades da protagonista e as dinâmicas que ela constrói com os personagens ao seu redor — como outro Bob Trevino (John Leguizamo), com quem ela estabelece contato pela internet na esperança de ter algum grau de parentesco. Aos poucos, os dois desenvolvem um vínculo de amizade genuíno.

Um dos momentos mais problemáticos ocorre em uma cena de terapia em que Lily, interpretada por Barbie Ferreira, compartilha suas dores mais íntimas. A terapeuta, em vez de manter uma escuta ativa e profissional, desaba em lágrimas. Essa inversão de papéis, embora possa ter sido pensada para humanizar a personagem da terapeuta, reforça uma visão distorcida da psicoterapia — a de que existem dores “grandes demais” até para quem foi treinado para escutá-las. Um clichê que desinforma e estigmatiza.

Lily é construída como uma personagem extremamente carente, e Um Pai para Lily trata essa característica com certo romantismo. Sua dor é retratada como algo único, quase incomparável, o que a isola emocionalmente e ignora a complexidade das experiências humanas. Esse tom exagerado empobrece a discussão e distancia o público da realidade de muitas pessoas que compartilham inseguranças semelhantes.

Essa carência também se manifesta em uma relação problemática com Bob (John Leguizamo), um homem mais velho que Lily conhece online. Apesar da atuação sensível e carismática de Leguizamo, a forma como essa amizade se desenvolve é desconcertante. O vínculo se estabelece com uma confiança excessiva e imediata — uma construção perigosa, considerando os riscos reais de interações virtuais, especialmente quando envolvem pessoas emocionalmente vulneráveis.

O desconforto atinge o ápice quando Lily convida Bob para consertar o encanamento da casa onde trabalha, antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente. Essa decisão impulsiva coloca em risco não apenas a própria Lily, mas também Daphne (Lauren Spencer), sua paciente paraplégica que mora no local. O roteiro trata o gesto como um ato espontâneo de confiança, mas, na prática, ele contraria qualquer senso de responsabilidade ou segurança.

A relação entre Lily e Daphne também carece de desenvolvimento. Durante boa parte da narrativa, o vínculo parece puramente profissional. Apenas no terceiro ato o roteiro tenta instaurar uma amizade mais profunda — de forma abrupta e pouco convincente, como se fosse uma exigência final para encerrar o arco emocional de ambas.

Apesar desses tropeços, Um Pai para Lily é salvo em grande parte pela direção cuidadosa de Tracie Laymon, que sabe onde colocar a câmera e como compor cenas emocionalmente densas. Laymon destaca com sensibilidade a atuação de Barbie Ferreira, aproximando o espectador de suas ansiedades e inseguranças. Esse olhar íntimo é um dos pontos altos da narrativa e contribui para que criemos empatia quase imediata por Lily.

Uma das melhores cenas do filme — e também uma das mais bem dirigidas — é a discussão final entre Lily e seu pai biológico. A cena é poderosa tanto na escrita quanto na execução. Nela, Lily finalmente se liberta de medos antigos e verbaliza a dor de ter crescido em uma estrutura emocionalmente ausente. É um dos raros momentos em que o filme atinge plenamente seu potencial dramático e entrega verdade emocional com impacto e autenticidade.

Um Pai para Lily é um filme com boas intenções e momentos emocionantes, mas que, por vezes, compromete sua própria força ao recorrer a construções forçadas e estereótipos nocivos. Ainda assim, a direção sensível de Tracie Laymon e a atuação hipnotizante de Barbie Ferreira elevam a experiência e garantem que, mesmo com suas falhas, o filme tenha algo importante a dizer.