Dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat, Homo Argentum é estruturado como uma antologia composta por dezesseis episódios autônomos, todos protagonizados por Guillermo Francella. Em cada segmento, o ator assume um novo personagem, transitando entre figuras que representam diferentes camadas da sociedade argentina, do cidadão aparentemente exemplar ao oportunista elegante, do torcedor fanático ao moralista de ocasião. O resultado é um mosaico satírico que procura expor contradições e vícios culturais do chamado “homem argentino médio”.
Mais do que uma simples comédia de esquetes, porém, o filme rapidamente se tornou um dos títulos mais debatidos do cinema argentino recente. Após o lançamento, a obra foi apropriada no debate político do país: o presidente Javier Milei elogiou publicamente o filme, interpretando-o como uma crítica ao que chamou de “agenda woke”, enquanto parte da crítica e da classe artística reagiu negativamente, acusando a sátira de reforçar caricaturas ideológicas e estigmatizar determinados grupos sociais. A repercussão transformou Homo Argentum em algo raro: um filme cuja recepção pública acabou sendo quase tão relevante quanto sua própria forma cinematográfica.
Do ponto de vista formal, Cohn e Duprat optam por uma encenação relativamente contida. A decupagem privilegia planos médios e closes prolongados, confiando no rosto de Francella como principal motor dramático. Em vários episódios, a câmera permanece estática ou se move de maneira discreta, quase invisível, como se recusasse qualquer virtuosismo que pudesse competir com o ator. Essa escolha cria intimidade e ressalta microexpressões, um leve tensionar da mandíbula, um sorriso que se desfaz antes de se completar, mas também gera certa monotonia visual ao longo da duração total. A sensação é de que cada esquete reinicia o jogo estético sem realmente expandi-lo.
A montagem trabalha com elipses rápidas e cortes secos que conduzem diretamente ao clímax cômico de cada segmento. Não há muito espaço para respiração dramática ou ambiguidade: a construção tende a encaminhar a narrativa para a “piada final”, encerrando o quadro quase como um blackout teatral. Em alguns momentos, isso funciona como mecanismo de precisão, a gag é limpa, o timing é calculado. Em outros, a interrupção abrupta reforça a impressão de esboço, como se estivéssemos diante de ideias que poderiam se desdobrar em conflitos mais complexos.
Visualmente, há um esforço claro de diferenciar os universos. A direção de arte e o figurino ajudam a demarcar classes sociais, idades e contextos: tons mais frios e ambientes minimalistas para personagens de elite, espaços mais carregados e quentes para situações de tensão doméstica ou moral. Ainda assim, a fotografia mantém uma paleta relativamente controlada, sem grandes riscos de contraste ou experimentação de luz. É um filme tecnicamente sólido, mas raramente ousado.
O desenho sonoro merece atenção particular. Em diversos episódios, ruídos ambientes como tráfego distante, talheres, portas, respirações, são usados para sublinhar o desconforto crescente das cenas. Há momentos em que o silêncio pesa mais do que qualquer trilha musical, sobretudo quando o humor se aproxima do constrangimento. A trilha, quando aparece, é econômica e funcional, evitando sublinhar excessivamente a ironia.
No centro de tudo está Francella. O filme quase se estrutura como um estudo de corpo e voz: mudanças sutis de postura redefinem hierarquias, o ritmo da fala indica poder ou fragilidade, a impostação vocal, às vezes rouca, às vezes artificialmente segura, revela máscaras sociais prestes a ruir. Mesmo quando o texto simplifica demais os conflitos, o ator encontra frestas para sugerir camadas internas.
Mas é justamente no terreno da sátira que Homo Argentum se torna mais complexo. A galeria de personagens funciona como um espelho deformado da sociedade argentina: corruptos cotidianos, oportunistas sociais, hipócritas morais e figuras que transitam entre cinismo e autopreservação. A ambiguidade está em saber se o filme observa essas figuras com ironia crítica ou se apenas reproduz os estereótipos que pretende expor. É essa ambiguidade que alimentou a disputa política em torno da obra.
Do ponto de vista estrutural, o maior problema do longa permanece na ausência de progressão dramática entre os episódios. Diferentemente de trabalhos anteriores da dupla, como O Cidadão Ilustre, onde a narrativa acumulava tensão social à medida que avançava, aqui cada história funciona como uma célula isolada. O filme se reinicia dezesseis vezes e, por isso mesmo, raramente alcança um clímax maior que a soma das partes.
No fim, Homo Argentum acaba funcionando tanto como exercício cinematográfico quanto como fenômeno cultural. Como filme, é irregular: há rigor técnico, bons enquadramentos e um trabalho performático impressionante de Francella, mas falta risco na encenação e na construção dramática. Como objeto de debate, porém, é muito mais potente, um retrato satírico que, ao tocar em feridas sociais e políticas da Argentina contemporânea, acabou revelando tanto sobre o país quanto sobre o próprio cinema que o representa.













