Em determinado momento de “Verity”, a personagem de Anne Hathaway atribui sua trajetória de sucesso a milagres, enquanto a entrevistadora a rebate dizendo que é a vilania dos seus personagens. Esse diálogo é importante para definir aquilo que a adaptação homônima da obra de Colleen Hoover, pensa ser sobre si mesmo e o real produto que Michael Showalter nos entrega: um thriller que quer ser classudo, mas é um show de clichês e expressões vazias, tal qual o rosto de sua protagonista.

“Verity” até oferece uma premissa interessante e temas que geram debates e reflexões, mas o filme sofre de problemas que são reincidentes tanto nas narrativas originadas de obras de Hoover quanto em outros filmes protagonizados por Dakota Johnson. E me incomoda pensar no quanto essas questões também esbarram em clichês atrelados a discussão de gênero, o que ocorre principalmente no tratamento dado as personagens femininas e suas escolhas muito óbvias e absurdas. 

O roteiro nos apresenta Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora publicada, mas sem popularidade e significância no mercado editorial, que é contratada para ser escritora-fantasma da renomada autora de suspense Verity Crawford (Hathaway). O ofício toma novas dimensões quando ela descobre um manuscrito de autoficção que a incomoda e oferece novos contornos para entender quem é Verity. A partir daí, ela mergulha numa teia na qual realidade, ficção e o desejo pelo marido da romancista (Josh Hartnett) a confundem. 

A escrita de Nick Antosca até tenta introduzir temáticas que dão sabor a trama, como o relacionamento da protagonista com a própria mãe e como ele reflete na recepção e julgamento que esta projeta sobre Verity e o que o manuscrito revela. É interessante essa tentativa, porque a psicanálise trabalha questões de projeção, ambivalência sentimental de mães e filhas e a teoria do espelho. Mas a forma como o roteirista discute tais pontos, além de ser uma salada de conflitos rasos, fica no campo das indicações e falácias. 

Lowen projeta em Verity sua figura materna e a antagoniza sem dar chances reais de conhecer a mulher por trás da escritora, isso ocorre por ela possuir tudo aquilo que a escritora fantasma gostaria de ter, e ainda que esse não seja o cerne da discussão de “Verity”, isso se manifesta na personagem-título não se encaixar no ideal de maternidade para Lowen e esta odiar o que escreve, mesmo que viva disso, o que diz muito sobre sua falta de compreensão do gênero auto-ficção. Assim a protagonista cobra de Verity um preço que é mesquinho, egoísta e autocentrado de sua parte. Gosto de como o roteiro coloca as duas em contraponto, porque tudo que conhecemos da personagem de Hathaway é aquilo que as suas palavras duvidosas e o olhar de Lowen projetam, assim ela se torna um mero reflexo. 

Nesse aspecto, é difícil defender o roteiro de Antosca. Alguns de seus deméritos é a ausência de tridimensionalidade nos personagens e a história clichê e absurda. Quantas vezes não vimos esse tipo de narrativa no cinema? O marido que esconde algo, a mulher carente que quer salvar o homem naufragando, a mulher que entra na casa e quer ocupar o lugar de dona, a criança que protege o segredo escabroso de um dos pais. Já vimos várias vezes essas tramas e com construções e atuações melhor desenvolvidas. 

Esse também é um ponto delicado em “Verity”. Anne Hathaway — figura onipresente no cinema em 2026 — se salva entre expressões apáticas, de psicopata e uma voz asmr. Já Josh Hartnett faz uma única expressão durante todo o filme que é impossível não desconfiar que ele não esteja escondendo algo, mas o ponto mais frágil é Dakota Johnson. Tenho a sensação que ela sempre está interpretado a mesma personagem pressão baixa, querendo seduzir um homem rico e fazendo cara de coitada. A cena em que conta a Jeremy que as pessoas lhe dizem que não tem expressão facial, pode ser um relato vivenciado pela própria atriz, considerando a apatia e sonsice com que encara qualquer um dos seus personagens. Nesse aspecto, Celine Song foi a única que conseguiu ainda arrancar alguma emoção dela em “Amores Materialistas”, não é o caso aqui. 

Parte disso relaciona-se com a direção de Michael Showalter, conhecido por dirigir comédias românticas como “Doentes de amor”, “Uma ideia de você” e “Um crime para dois”. Neste projeto, o diretor faz um feijão com arroz básico, bem protocolar, como se ele tivesse tateando para encontrar um ponto de equilíbrio entre um suspense, um romance carregado de “tesão” – com muitas aspas — e um humor que não encontra lugar, a não ser no rosto caricato da protagonista.

Não ajuda o fato de parecer que estamos em uma versão que tenta ser mais sexy de “A empregada” — mesma atmosfera, mesma vibe e uma narrativa que a atravessa. Digo isso, porque “Verity” poderia debater o trabalho do escritor-fantasma e tornar essa obra um suspense sobre os meandros da profissão, como Polanski faz em “Escritor Fantasma”, com Ewan Mcgregor, mas dessa vez sob uma perspectiva feminina. A história de Showalter e Hoover segue outro caminho, preferindo alicerça-se na inveja, no desejo e na obsessão que compõem a rivalidade feminina. Estamos em 2026 e ainda temos que ver essas narrativas absurdas que se levam a sério demais.

“Verity” parece aquelas comidas bem embaladas, mas que não tem gosto nenhum quando você prova. A trama já foi vista diversas vezes no cinema com interpretações e escolhas técnicas e narrativas mais bem trabalhadas. Showalter mirou num thriller erótico, mas esqueceu que sua protagonista carrega uma expressão vazia que não convence ninguém a torcer por ela ou pela história que ela quer nos contar. Talvez esse seja o milagre que Verity conta no início da projeção: o de torcer pela vilã que consegue transmitir o pouco de energia que há no filme.