A premiação do Oscar sempre se revelou um evento profundamente provinciano, inclusive dentro de suas próprias fronteiras. Isso ocorre não apenas pelo objetivo de promover a indústria norte-americana como a única via de qualidade e estética, mas também pela efervescência que a cerimônia ainda provoca globalmente. Nota-se um entusiasmo coletivo sempre que Hollywood entrega alguma “esmola” a esse “outro” cinema — um gesto que, sob o pretexto do reconhecimento, acaba por neutralizar propostas mais ousadas, padronizando-as conforme o gosto da Academia.

Embora se reconheça que Hollywood representa uma tradição válida na história da sétima arte, isso não a torna universal; trata-se de um ecossistema que sempre se voltou para si mesmo. O Oscar atua como uma ferramenta de uniformização do gosto e das formas de consumo, posicionando-se como o último bastião da curadoria global. Essa posição de controle permite que a premiação funcione como um filtro para anular outras cinematografias e validar a ideologia dominante ou as pautas do momento. Historicamente, o Oscar se consolida mais como um dispositivo de ordem política do que propriamente estética: o braço institucional de um projeto de hegemonia cultural.

Contudo, nota-se uma mudança drástica na orientação dessas pautas conforme o discurso progressista passa a ocupar o tapete vermelho. Isso surge como uma “correção política” diante do panorama conservador que sempre marcou a premiação, manifestando-se em temas como o combate ao racismo ou a promoção da diversidade, entre outros. Essa mudança de rota pode ser demarcada a partir de 2017, com a vitória simbólica de Moonlight (Barry Jenkins), consolidando-se em 2020 com o fenômeno Parasita (Bong Joon-ho). Este último forçou o sistema a premiar o cinema internacional não por uma abertura genuína, mas como uma manobra de sobrevivência para não perder sua relevância global.

Ainda assim, essa abertura trouxe uma visibilidade inédita, resultado de uma reconfiguração onde novas forças produtivas passaram a ocupar simbolicamente o centro do dispositivo. Tal ocupação não visa necessariamente à liberdade criativa, mas à reafirmação do próprio conceito de indústria: a padronização do produto. Enquanto certas plataformas e festivais se esforçam para exibir obras sob uma curadoria que engessa o “cinema de arte”, outros apostam em uma versatilidade moldada pelo consumo de massa. No fim, trata-se de impor um modelo industrial global, onde o controle sobre a distribuição e o alcance permanece centralizado.

Como estratégia de sobrevivência, tal abertura revela-se um verdadeiro “cavalo de Troia”. É preciso enfatizar que a visibilidade alcançada sob a lógica do capital não se traduz, obrigatoriamente, em ganho estético ou político. Padronizar o chamado “cinema de autor” não significa dar voz às cinematografias não hegemônicas ou periféricas. Trata-se de uma apropriação onde a honestidade intelectual acaba diluída em um dispositivo que dita o padrão de qualidade, garantindo que o veredito final sobre o que deve ser celebrado continue sendo, invariavelmente, o deles.

É indiscutível o fetiche que Hollywood exerce no imaginário global, a ponto de cineastas se emocionarem ao ocupar esse palco. Mas, sob o pretexto de “fortalecer a indústria”, o que se ergue, na realidade, é um “puxadinho” voltado a interesses corporativos. Tratar esse modelo como o objetivo final do cinema é uma busca contraditória, pois a potência de uma cinematografia, sobretudo fora dos eixos tradicionais, reside em sua natureza inerentemente diversa. Sustentar essa singularidade é o que garante ao cinema pulsação e vida.

Resta saber até que ponto serve a um filme chegar ao seu próprio povo carregando apenas os louros de uma indicação ao Oscar. É preciso questionar se essa validação externa contribui para o diálogo local ou se apenas reforça o uso de códigos moldados para agradar ao olhar do centro, da elite e do mercado. Ocupar espaços de influência, como o Brasil faz agora com Kleber Mendonça Filho, traz um reconhecimento de peso, mas o impasse permanece: essa vitrine nos permite sustentar um olhar autêntico sobre nós mesmos ou estamos apenas negociando nossa diversidade em troca de um lugar em um sistema que exige nossa neutralização?

O entusiasmo com que se defende o caminho de nossas produções no Oscar pode revelar tanto um rumo quanto um equívoco. A suposta pluralidade de milhares de membros não anula o fato de que o veredito sobre nossas histórias continua mediado por uma engrenagem uniformizadora. O cinema que pulsa fora dos eixos não deveria buscar o convite para o banquete; ele sustenta sua natureza não padronizada como prova de que a potência de uma cinematografia é irredutível.