Aristóteles afirmava que “A arte imita a vida”; logo, o cinema sempre se apropriou das experiências reais para representá-las nas telas como fonte de inspiração. E não é de hoje que o chamado “filme motivacional” é utilizado para se conectar com as emoções do espectador.
Quando as narrativas são bem construídas, com certeza o trabalho funciona como uma companhia agradável para quem deseja se emocionar. Imparável, o novo drama esportivo do Prime Video, que conta com um elenco estrelado liderado por Jennifer Lopez, é a aposta da vez para atingir o público que consome o streaming.
O longa, que marca a estreia na direção do editor William Goldenberg (vencedor do Oscar de montagem por Argo), foi inspirado no livro Imparável: De Oprimido a Invicto – Como me Tornei um Campeão, escrito por Anthony Robles (vivido no filme com muita desenvoltura pelo talentoso Jharrel Jerome, da série Olhos que Condenam), que nasceu com uma só perna e teve que superar as adversidades para se sagrar campeão no universo da luta greco-romana na liga norte-americana da NCAA. A cinebiografia mostra sua trajetória de vida após o colégio, apresentando as dificuldades no campo familiar e esportivo que o atleta viveu ao lado da mãe Judy (Lopez).
Rocky como muleta narrativa
O filme utiliza o modelo de superação de Rocky, um Lutador como muleta narrativa para gerar emoção. Isso é fácil de perceber não apenas no enredo motivacional, que bebe descaradamente da obra de John G. Avildsen ao mostrar a maneira como Anthony deve lidar com sua frustração/raiva oriunda do mundo externo e não deixar que ela o contamine dentro do ringue. As referências também são óbvias: do pôster de Rocky no quarto de Anthony, à visita à famosa escadaria do Museu de Arte da Filadélfia, até os enquadramentos motivacionais que Goldenberg aplica em várias passagens de treinamento do protagonista.
O grande entrave do filme em relação à obra reverenciada é a sua previsibilidade dramática. Se a história de Robles, relatada acima, indica uma jornada inspiradora e emocionalmente ativa, o que se vê pelas lentes de Goldenberg é um filme protocolar, pouco vibrante e que não consegue extrair emoção genuína da trajetória do biografado — algo comum em filmes que retratam a vida latina na Grande América.
A falta de habilidade da direção acaba atrapalhando o envolvimento emocional com a história, principalmente ao administrar a subtrama familiar (como a dos abusos domésticos, que é o melhor exemplo disso) junto à narrativa esportiva, quebrando o ritmo desta última, com desdobramentos convenientes que impedem uma maior evolução dramática, devido aos clichês e diálogos esquemáticos do roteiro escrito a seis mãos.
Reflexão vazia acerca da representatividade
Um dos problemas centrais de Imparável está no paradoxo que rege o cerne da sua história: de um lado, temos um drama que se apresenta motivado a mostrar como Anthony lidou com suas diferenças físicas em relação aos adversários; do outro, ele nunca busca fazer o público entender o que exatamente é essa adversidade.
É como se o filme evitasse discutir o tema da deficiência, além de percorrer apenas superficialmente a questão do preconceito sofrido por Robles em decorrência de sua desvantagem física. Não existe uma busca para compreender os motivos que o levaram a se tornar um lutador, e isso fica visível na conversa dele com o seu técnico (Don Cheadle) sobre suas vontades de praticar o esporte, onde a própria construção dos diálogos entre eles se revela tão reticente em abordar sua razão de ser.
A narrativa é dúbia ao enxergar a situação — ou ao menos ao enxergá-la além da deficiência — colocando o herói sempre capaz de enfrentar suas dificuldades e seus adversários sem qualquer tipo de ajuda. Vejo isso como um problema na discussão da acessibilidade para pessoas deficientes, inserindo uma reflexão vazia acerca da representatividade.
A obra acaba sendo salva do marasmo pelo bom retrato do esporte em tela — gosto da câmera na altura dos lutadores no chão, embora nenhuma cena em si seja fora da curva — no que tange ao destaque da importância da resistência física e mental exigida pela história, além do competente elenco que eleva o trabalho. Existe um forte trabalho da parte de Jharrel Jerome e Jennifer Lopez em dar um peso emocional aos seus personagens, ao lado dos coadjuvantes de luxo como Don Cheadle, Michael Peña e Bobby Cannavale — este último interpretando o único personagem que traz algo odioso e, talvez, mais tridimensional, afinal, todos os demais são bondosos em suas ações.
Por mais que seja difícil inovar dentro da fórmula previsível e desgastada do gênero drama esportivo (ou cinebiografia), fica claro que exemplos recentes como Garra de Ferro e Eu, Tonya souberam trazer um gosto de novidade interessante. Imparável, apesar de sua história inspiradora, não traz nada de novo ou particularmente notável. Por isso, é frustrante o quanto uma obra pode retratar um sujeito extraordinário em um filme protocolar.













