É simplesmente curioso que Hollywood, através de um estúdio renomado como a Warner Bros., consiga ter o despudor de apresentar tramas como as de Invocação do Mal. Afinal, a história chega ao público anunciada como sendo baseada em histórias reais, o que obviamente não é o caso; tratam-se de alegações reais de eventos sobrenaturais sobre os quais nunca se teve consistência documental ou credibilidade científica.
Isto posto, o sobrenatural sempre foi muito atraente para o terror, tanto ao permitir explorar interessantes termos de linguagem, quanto de abordagens apelativas em que o conteúdo fica muito aquém da forma, não possuindo nada muito além de um convite à adrenalina ou em que a construção de um palco para sustos é maior do que a função dramatúrgica da obra. Os filmes da série Invocação do Mal, em minha opinião, se encaixam neste último conceito. A despeito disso, os filmes da franquia sempre tiveram a competência de criar uma tensão progressiva através de acontecimentos instigantes, bem filmados e da construção de mistério, se valendo das possibilidades oferecidas pela atmosfera opressiva dos cenários e das sombras existentes neles.
O Último Ritual, não é diferente: à frente da série desde o terceiro filme, Michael Chaves se sai bem na condução dos eventos misteriosos de forma criativa. A sequência do fio do telefone é o maior exemplo disso ao brincar com a nossa percepção e a da personagem da mãe das crianças – as vítimas da vez. A partir de um design de produção, montagem e efeitos visuais excelentes, o momento apresenta de maneira impecável o espaço cênico, a situação apresentada e as características do objeto, criando o mistério de forma bem singular. Destaco ainda como o espelho, presente do avô das meninas, promove um bom ponto de virada para justificar a manifestação da entidade sobrenatural, ainda que se desgaste no decorrer da trama.
Esta boa construção visual se alia ao elenco bem escalado com destaque para Kíla Lord Cassidy e Beau Gadsdon, intérpretes, respectivamente, das irmãs Heather e Dawn Smurl. Pena o desenvolvimento do restante da família ficar bem aquém, enquanto sobra espaço para o casal Warren. O Último Ritual se destaca em relação aos demais pela presença de dilemas e conflitos pessoais que enriquecem o casal. Se nos filmes anteriores, eles eram nada mais que heróis unidimensionais movidos pela simples generosidade de ajudar famílias oprimidas, aqui o roteiro acerta em aproveitar o tom de despedida para criar um confronto entre o “conhecimento profissional” e a solidariedade dos Warren com os efeitos negativos que as experiências anteriores deixaram, bem como a mudança de foco pessoal para a criação da filha Judy. A garota, aliás, estabelece um importante e interessante elo com o caso central da trama ao remeter a um incidente ocorrido durante o nascimento dela.
Apesar de seus méritos técnicos e da boa condução da trama, a conclusão do longa se mostra vazia, apesar de um clímax intenso, pelo fato de que a natureza da ameaça sobrenatural não chega a ser totalmente esclarecida, ao contrário dos filmes anteriores, bem como pelas soluções fáceis para detê-la, que não compensam o investimento emocional até o momento.
Ao contrário de obras mais recentes do gênero, como “Entrevista com o Demônio” (que se utiliza de modo mais ambíguo e maduro da delicadeza do tema) e “Herege” (que se utiliza da tensão e do medo como meio de representação de um discurso), Invocação do Mal 4 segue a abordagem da franquia de abraçar o pavor pelo pavor, meramente cativando o sentido dos espectadores pelo apuro emocional que proporcionam. E não que isso seja necessariamente um problema, mas quando se tem um elemento MacGuffin em uma trama em prol de protagonistas cujo conflito central tem um significado conceitual difuso, que nunca é exatamente esclarecido pela própria trama, temos um problema.
Sendo assim, a franquia termina sem grandes surpresas, se sobressaindo pelo carisma de seus personagens, mas não por uma narrativa que explore suas temáticas de fé, religiosidade, traumas, medo e natureza do desconhecido de modo construtivo, profundo ou dramaticamente interessante, de modo que se diga algo de realmente substancial acerca das personagens envolvidas.













