Em “Herege”, duas missionárias mórmons (Sophie Tatcher e Chloe East) batem à porta de um casarão gótico durante uma tempestade sinistra. O alarme mental da maioria das pessoas provavelmente começaria a soar ao passarem pelo pesado portão de ferro, mas quando seu anfitrião é um simpático Hugh Grant, você acaba aceitando ficar.

Grant é Mr. Reed, que convida as duas jovens sob o pretexto de aprender mais sobre a igreja. Mas as missionárias são sagazes e rapidamente percebem que algo está errado, dando início a um sádico jogo mental no qual devem descer até o inferno para encontrar uma saída.

Até aí, tudo bem. O problema é que “Herege” sacrifica qualquer senso de urgência em prol de seus diálogos rocambolescos. Reed é o tipo de personagem que claramente ama o som da própria voz, o que poderia até ser divertido se as duas protagonistas também não optassem pela tagarelice quando o melhor seria apenas correr.

O plano de Reed, em termos simples, envolve fazer as missionárias questionarem a própria fé. Na cena-chave do longa, ele faz isso através de um monólogo em que compara as principais doutrinas religiosas a jogos de tabuleiro. Sua filosofia de botequim não deixa de ser curiosa. O problema é que, em tese, o personagem é um intelectual, mas tudo que sai de sua boca são meras curiosidades colhidas da Wikipédia. Não há nenhuma grande revelação aqui.

É verdade que até mesmo a personagem de Sophie Tatcher questiona sua fraca retórica em dado ponto. Mas isso não basta para anular o enfado que sentimos enquanto o roteiro fabrica interações que se estendem a esmo, apenas para que os personagens possam proferir suas frases de efeito e falas estilizadas.

E enquanto o blá-blá-blá acontece, os diretores Scott Beck e Bryan Woods tentam desesperadamente imprimir algum dinamismo à ação. Na maior parte do tempo, isso significa girar a câmera pelo espaço enquanto os atores batem o texto de frente uns para os outros. Infelizmente, não estamos aqui diante de um Shyamalan que, aliás, explorou temas similares sobre fé no, aí sim, genuinamente claustrofóbico “Batem À Porta”.

“Herege” não dispõe da mesma imaginação visual. Até mesmo os momentos mais inspirados do longa se revelam meros pastiches — o melhor plano do filme, aquele que envolve a maquete, foi chupado de “O Iluminado” —, o que é apropriado para um projeto que confunde regurgitar citações pop com ser inteligente.

Curioso, então, que o filme tenha sido escrito e dirigido pelos mesmos roteiristas de “Um Lugar Silencioso”. Em retrospecto, talvez o sucesso daquela obra fosse fruto justamente do silêncio compulsório dos personagens, já que ninguém consegue calar a boca em “Herege”. Nesse sentido, a ideia de escalar Hugh Grant como vilão é divertida, mas apenas serve para cimentar ainda mais a afetação irritante do projeto como um todo. O resultado é um filme desprovido de qualquer tensão.

Na verdade, parece que a única ameaça que esses personagens enxergam é a de não ter o que falar.