Justino: Nos Bastidores do Reino chega na contramão de Nada a Perder, cinebiografia de Edir Macedo. Se a produção promovida pela Igreja Universal do Reino de Deus visava a exaltação do líder da entidade, o longa de José Eduardo Belmonte baseado no livro autobiográfico de Mário Justino acompanha a trajetória de um jovem pobre que encontra a possibilidade de mudar de vida e rapidamente ascende dentro de uma igreja neopentecostal
Belmonte nos conduz através dessa jornada do herói em que acompanhamos a formação de uma estrutura baseada em dinheiro, ganância e obediência. Para quem assistiu Casa Gucci (2021), notará algumas semelhanças com o longa de Ridley Scott, seja na história contada em retrospectiva, a cena de abertura em que alguém está prestes a ser baleado ou o tom cinzento que vemos em tela.
É no mínimo engraçado ver que Justino é uma espécie de Patrizia Reggiani. Um moço pobre atraído por uma vida melhor, mas que se corrompe diante de tanto poder. Ao ser escorraçado por aqueles que o alçaram, o rapaz decide tomar atitudes drásticas. As semelhanças acabam aqui e é curioso que ambos fizeram o que fizeram na mesma época (meados da década de 1990) e continuam coexistindo no mundo atual. Baita coincidência!
Christian Malheiros assume o papel de Justino e sustenta bem o peso da história. É um trabalho realmente desafiador, porque o ator precisa atravessar três décadas da vida de Justino, começando pela adolescência nos 1960 e fechando com a descoberta de uma nova vida e propósito nos anos 1990 em um país estrangeiro.
Justino é alguém que sofre com a estrutura de um país dilacerado pela Ditadura Militar, que não lhe dava expectativa alguma de sobrevivência. A fé é o que o move. Quando falo em contraponto, é exatamente na figura deste homem que penso. Justino é realmente um credor da fé. Entre todos personagens, ele é o único a realmente a seguir os ensinamentos, ainda que se envolva com corrupção.
Apesar de ganancioso, nunca se torna um homem frio como seus companheiros ou deixa de estender a mão a quem precisa. Apesar de tudo, é um homem sequelado e carregado de preconceitos, ao que no ato final vemos a chegada de Danuza (Onna Silva), uma mulher trans e enfermeira, que realmente chega como uma figura divina na vida de Justino, a fim de guiá-lo até a luz que o mantém são até os dias de hoje. Malheiros consegue transitar grandemente por todas essas fases e entrega o que talvez tenha sido a grande atuação masculina do Festival de Gramado.
Os outros grandes destaques ficam para Caio Blat, Bruno Garcia e Angel Ferreira. Os atores representam figuras comuns do dia a dia, personagens perigosos justamente porque não precisam parecer perigosos o tempo inteiro. Cenas pesadas – especialmente as de ataque para com outras religiões, compõem um grande trabalho dos 3, que não precisam abusar de estereótipos e caricaturas por ser algo extremamente natural até os dias de hoje.
A fotografia é um deleite à parte. É um longa muito bem filmado, é perceptível um carinho a mais com o tratamento, diria um trabalho quase que artesanal. Não que os outros filmes não tenham essa beleza, ou outros filmes não sejam artesanais, mas “Justino” tem um quê de Hollywood que particularmente me agrada. Daí vem a comparação com “Casa Gucci”, são jornadas de ascensão e queda bem filmadas, bonitas de se ver e com transições criativas – em “Justino” temos uma cena de tapa que corta imediatamente para outra ação, em “Gucci” temos uma incrível transição de uma leitura de testamento para um enterro, propositalmente cômica. Sinto muito por quem não gosta.
No fim, “Justino: Nos Bastidores do Reino” funciona porque entende que sua história não é apenas sobre uma igreja, mas sobre o que acontece quando alguém descobre que a fé pode ser também uma moeda de poder. Belmonte entrega um filme popular, acessível e provocador, sem santificar ninguém., Mais do que apontar o dedo para uma instituição específica, o longa quer mostrar como a promessa de salvação pode se transformar em uma poderosa ferramenta de controle. E contar essa história particular, acaba revelando uma faceta muito mais atual do Brasil em que vivemos.













