A diretora Nia DaCosta e a atriz Tessa Thompson tiveram seu primeiro encontro no Sundance Film Labs em meados dos anos 2000. O match entre elas seria visto no primeiro longa-metragem de Nia: “Passando dos limites” (2018). A parceria volta a repetir-se em “Hedda” (2025), adaptação homônima da peça teatral de Henrik Ibsen que acompanha Hedda Gabler, uma mulher intensa que precisa navegar entre uma vida doméstica indesejada, um casamento desgostoso e uma paixão do passado no decorrer de uma noite importante para sua família.

O Cine Set participou de uma entrevista coletiva com Nia da Costa e Tessa Thompson, na qual falou-se sobre a parceria entre elas, os desafios da produção durante a greve de atores e roteiristas e como Hedda é uma figura desafiante e atraente.

Pergunta – Quais foram os desafios específicos desse projeto como atriz e produtora?

Tessa Thompson – Um dos desafios de produção foi que estávamos prestes a começar as filmagens, e dois dias antes de iniciarmos, aconteceu a greve (de roteiristas e dos atores). Pensamos que seria só por algumas semanas, mas acabou sendo uma greve dupla e durou bastante tempo. Então, esse foi um dos desafios: manter o projeto vivo.

Como atriz, esta provavelmente foi uma das coisas mais desafiadoras que já fiz, especialmente, no sentido de realmente compreender a obra. Fiz isso de forma extensiva, assistindo a todas as adaptações que consegui encontrar, lendo todas as diferentes traduções do texto, tentando entender arquitetonicamente por que essa peça nos cativa há tanto tempo. Hedda Gabler é, sem dúvida, um dos personagens mais volúveis e desconcertantes da literatura.

Tentar entendê-la e realmente entendê-la o suficiente para conseguir encarná-la de verdade foi certamente um desafio. Depois de todo esse trabalho meio acadêmico, é necessário pensar em como você faz para se desvencilhar de tudo isso e se permitir ser livre dentro da performance. Isso ajuda a encontrar algo novo e realmente pessoal dentro da obra.

Pergunta – Depois de passar por essa experiência, o quanto mais perceptiva você acha que está sobre como as pessoas podem te manipular?

Tessa Thompson – Isso é tão interessante, porque eu realmente tive essa sensação quando estava interpretando Hedda (…). Na cena em que há uma fila de convidados e minha personagem cumprimenta um por um, Nia nos deixou interpretar até o fim como uma improvisação. Sou muito grata por isso, porque; foi ali que percebi que esta é uma mulher que obsessivamente avalia o quanto alguém pode ser útil para ela, alguém que obsessivamente avalia o valor social deles dentro da sociedade.

Isso foi uma coisa tão fascinante de desempacotar e habitar. Eu, Tessa, provavelmente sou um pouco ingênua, embora trabalhemos em uma indústria onde você pode ver isso nas salas que ocupamos às vezes. Porém, eu tendo a tentar ignorar e simplesmente me relacionar com as pessoas como pessoas, não pelo que elas fazem ou pelo que podem fazer por mim. Sempre fui meio alérgica a essa maneira de se mover pelo mundo, mas interpretar uma mulher que não tem medo disso foi, de certa forma, o que me fez meio que me interrogar, em certo sentido.

Pergunta: Hedda é uma reinterpretação moderna de uma história clássica atemporal e uma peça que apresenta uma protagonista profundamente complexa. Quais aspectos de Hedda você achou mais atraentes para trazer a um contexto contemporâneo e como você trabalhou para equilibrar a vulnerabilidade dela?

Tessa Thompson – Uma das coisas interessantes ao trazer a trama para uma sensibilidade moderna é o fato de que vivemos em uma época em que há tanta positividade em torno da sororidade e das mulheres em relação umas às outras de forma geral. Algumas das coisas que estamos explorando para encontrar uma sensibilidade moderna são realmente desafiadoras, porque, fundamentalmente, vivemos em uma época a qual há conversas e ações sobre mulheres apoiando mulheres. E Hedda é uma mulher que não está necessariamente interessada nisso e um dos impulsos ou sentimentos que você a vê agir é o ciúme e a inveja, por exemplo. Acho que, para uma sensibilidade moderna, a ideia de uma mulher ser bastante ciumenta em relação a outra e agir com base nisso é algo que não encontra muita paciência ou graça. O que eu aprecio.

Tivemos uma exibição em Nova York e uma jovem veio até mim e disse: “Eu sou tão Hedda”. Achei profundo, porque ninguém havia dito isso [risos] durante a temporada atual. E ela continuou: “Sim, sou muito impulsiva.” Ela estava dizendo isso de forma muito positiva: esta é uma mulher, uma jovem que é vivaz, espontânea, agindo com base em seus instintos e impulsos, sem medo de ocupar espaço. É tão deslumbrante que ela se sinta assim. Quer dizer, espero que ela não esteja por aí queimando manuscritos. [risos] Ou convencendo pessoas em uma jornada de sobriedade a beber. Mas acho que essa coisa fundamental de ser uma mulher que não tem medo de ocupar espaço e nem de ser categorizada como difícil só porque está se apresentando exatamente como é. Para uma sensibilidade moderna, isso é algo que realmente pode ressoar: há partes de Hedda, na verdade, que podem ser admiráveis.

CINE SET – Há alguns elementos de filmes de terror em “Hedda” — como cenários, luzes e sons — E, especialmente, quando pensamos na condição feminina. Como você vê a interconexão no filme entre os dois: cinema de terror e a condição feminina?

Tessa Thompson – Que pergunta ótima! Acho que Nia estava realmente animada por estar nessa espécie de casa de campo inglesa, por causa de todas as convenções em torno do mistério de assassinato. E, obviamente, o filme começa introduzindo isso. Acho que o que mais nos interessa são os horrores do que acontece, como nos pervertemos quando tomamos decisões que realmente refletem quem somos. E como pode ser horrível acordar em uma vida que você talvez tenha escolhido, mas por todos os motivos errados.

Acho também que esta peça trata muito de desejo, controle e do desejo de controlar. Isso pode ser muito, muito assustador quando nos permitimos ser motivados pelo desejo de exercer controle sobre os outros. De muitas formas, a busca de Hedda por poder vem fundamentalmente do sentimento de total impotência, algo realmente horrível. Isso te coloca dentro de um filme de terror, quando você sente que não tem poder sobre a própria vida, e que entregou todo o seu poder. Então, adorei que essa seja uma observação muito perspicaz.

Uma das coisas que mais amo em Nia como cineasta é seus interesses são tão variados no cinema. Já ao longo da carreira dela, ela fez tantos filmes em um período de tempo tão curto. Ela trabalhou em filmes realmente íntimos, quase como cinema verité se você olhar para “Passando dos limites”. São filmes muito quietos e que nos levam ao espaço sideral. Filmes como A Lenda de Candyman que nos levam ao terror e a esse gênero. Ela tem essa capacidade incrível de realmente permitir que seus filmes pessoais assumam todas essas coisas que a interessam dentro do gênero e tem a habilidade de organizar todos esses interesses de uma forma que parece totalmente original e singular, mas coesa. “Hedda” é definitivamente uma indicação disso.

Pergunta – Conte-me sobre como a ideia surgiu pela primeira vez e o que te animou à medida em que você meio que mergulhava nas muitas camadas que poderia descobrir com o projeto?

Nia da Costa – Minha leitura inicial de Hedda foi quando eu estava me apaixonando pelo teatro e por Ibsen, logo, a paixão se estendeu para essa personagem. A peça é tão fascinante, ao mesmo tempo em que é enigmática, inefável e horrível. Hedda, como personagem, é tudo isso, mas também muito vulnerável, engraçada, sexy, repugnante e adorável. Você percebe que ela é essa criatura muito complexa e a peça se encaminha nessa construção realmente interessante.

Além disso, eu queria abordar todas as coisas que realmente me incomodavam na peça. Mudar Eilert Lovborg para Eileen Lovborg foi uma das primeiras coisas que pensei por dois motivos: primeiro, eu realmente queria ter outra mulher na peça, queria que fosse sobre mais do que apenas Hedda. Meu objetivo era que fosse sobre três mulheres que estão tentando descobrir o que diabos estão fazendo [risos] e como podem se sentir bem e inteiras dentro de si mesmas.

Hedda é alguém tão insatisfeita por razões que ela não entende, mas há aquelas que ela sabe: ela não gosta do marido, odeia a casa em que vive, não quer estar casada, deseja a sensação de liberdade que acha que não pode ter sem um homem. Há também o fato de que quando você muda Eilert para Eileen, você adiciona esse elemento queer à história também. E embora algumas pessoas leiam a peça original como Hedda sendo queer, o que acho interessante, eu não necessariamente o fiz. Foi um efeito colateral no meu filme que todo mundo era queer [risos] uma vez que mudei Eilert para uma mulher.

Ainda assim, para mim, permaneceu fiel ao original porque eu estava sendo fiel a todos os temas e aos sentimentos e àquela sujeira que eu amo tanto na obra original.

CINE SET – Como a Hedda de Nia DaCosta difere da de Ibsen? Quais detalhes e profundidade foram possíveis dar aos personagens agora que ela é uma mulher negra?

Nia da Costa – Acho que há tanta profundidade que entra nesse personagem. Ela já é tão complexa e interessante. Quando soube que escalaria Tessa, que uma mulher negra interpretaria Hedda, foi preciso, novamente, pensar no contexto do mundo. Escolhi passar essa narrativa nos anos 1950 e na Inglaterra. Estamos colocando neste período, a arquitetura da vida dela, como o pai, o General Gabler, e o desejo dela de corresponder a ele, mas também com a sensação constante que não alcançará a plenitude de validação de poder. A negritude dela foi uma parte realmente importante e chave nisso na minha versão.

Dessa forma, acredito que realmente abriu uma visão de Hedda com a qual algumas pessoas poderiam se identificar mais com a protagonista. Realmente queria que ela se sentisse isolada no mundo e não apenas em termos de gênero, mas também de raça. Há tantas maneiras diferentes em que isso acontece, sabe? Por exemplo, a única vez que ela menciona a raça no filme é para Eileen ao dizer: “quantas dessas mulheres que você quer que eu seja são negras?” E Eileen responde: “tanto faz”. Ela nem se envolve porque, para ser justa, muitas pessoas naquela época diriam, ‘você está bem, você não precisa de mais’.

Além disso, provavelmente o amigo mais próximo dela no filme é um homem negro, o qual, apesar da negritude, também é homem e então ele a vê como menor, porque ela ser uma mulher. Hedda está sempre meio que entre a raça e o gênero, sentindo que está ficando aquém. E isso realmente me deu muita oportunidade de isolá-la mais, o que acho realmente importante para a personagem dela.

PERGUNTA: Fale sobre os aspectos de apresentação das mulheres hoje, porque os temas que você levanta são relevantes atualmente.

Nia da Costa – Todos estamos meio que performando. Performamos classe, gênero, raça e intelecto. Queremos que as pessoas nos vejam do jeito que queremos ser vistos. Queremos ser amados e vistos como bons e não poderosos, mas como dignos. Isso leva a tanta performance.

Com uma personagem como Hedda, acho que essa performance se mistura com a confusão dela de não saber quem é. A performance dela está em um espaço tradicional, feminina. Ela usa seus “encantos”, porque sabe o que é isso e se sente muito confortável nesse espaço, mesmo que a mate por dentro. Para nós hoje, como mulheres, estamos absolutamente performando não só gênero, mas também um senso de contentamento com o jeito que as coisas andam em uma sociedade desigual, mesmo que obviamente nos sejam dadas oportunidades incríveis. Tudo está sempre mudando, sempre melhorando.

Às vezes temos que performar essa ideia de que tudo está bem para conseguir fazer as coisas. Temos que performar que tudo está bem quando estamos numa reunião com uma sala cheia de homens, por exemplo. São pequenas mortes que experimentamos todos os dias só para passar pelo mundo com menos conflito, eu diria.

Estamos sempre calculando: ‘ok, se eu fizer isso, se eu falar isso ou aquilo, se eu falar nesse tom ou para essa pessoa em vez daquela, será que então poderei ser ouvida? Será que as palavras que eu digo vão realmente penetrar?’ E isso tudo é performance do seu próprio jeito. Quando você é forçada a performar tanto, é aí que vem parte da raiva que você vê no filme.

PERGUNTA: Este filme conta com um elenco impressionante e talentoso de atores. Pode falar sobre o processo de escalação e como você viu esses atores dando vida aos seus personagens?

Nia da Costa – Conheço Tessa Thompson há anos e anos. Ela está ligada ao filme. Depois, veio Nina Hoss, que foi a decisão mais fácil do planeta, sabe?! Ela é uma atriz deslumbrante que eu amo há muito tempo. Sentamos e conversamos sobre o filme, ela entendeu completamente e estava apaixonada por Eileen.

Passamos por muita gente para o papel de George [risos] por causa da greve. Eve Hewson e Callum Turner foram escalados antes, mas, tiveram que sair e fazer outras coisas. Aí ficamos com Tom Bateman e Imogen Poots, e me sinto tão sortuda [risos] com isso. F

Des Hamilton e Jo Harris escalaram o resto do filme. Des Hamilton é alguém com quem trabalho desde “Top Boy”. Ele está em todos os meus filmes desde então — bom, ele não fez “A Lenda de Candyman”, mas tudo o que fiz depois, o filme da Marvel e este, ele foi escalado. Ele é realmente ótimo em encontrar elencos talentosos de forma impressionante e uma coisa que amo que ele faz é forçar agressivamente os atores a improvisarem no final de cada cena, sem avisar que isso vai acontecer.

A gente simplesmente faz a cena e aí ele começa a falar com eles no personagem e você imediatamente percebe quem consegue acompanhar e quem não consegue. Geralmente escalamos as pessoas que conseguem acompanhar e é uma experiência tão divertida. Isso realmente significa que encontro atores que não são só excelentes, mas que também conseguem estar num conjunto, ir com o fluxo, inventar e incorporar completamente seus personagens. Então eu dei muita sorte. E alguns dos meus atores secundários e terciários são, sabe, protagonistas de séries de TV e no teatro, e estão aqui só curtindo comigo. Foi incrível.