É possível concordar com os temas de um filme, as suas ideias, e discordar da forma como estas são apresentadas cinematograficamente? Sempre acreditei que sim, e este volta a ser o caso com o musical chileno La Ola, novo trabalho do cineasta Sebastián Lelio, o mesmo diretor de Uma Mulher Fantástica (2017).
Não se pode dizer que faltou ousadia: enquanto hoje vivemos na era dos musicais meio acanhados, com atores e atrizes cantando baixinho e ensaiando uns passinhos, como se os filmes em si tivessem vergonha de serem musicais, La Ola abre com um número grandioso, com dezenas de figurantes e uma montagem e trabalho de som bombásticos. O filme chuta a proverbial porta, mas vai perdendo fôlego ao longo do tempo.
La Ola (A Onda, numa possível tradução para o português) é inspirado na onda de protestos que ocorreu há alguns anos em universidades chilenas, quando estudantes se juntaram para chamar atenção para os numerosos casos de assédio e violência sexual cometidos contra as alunas nas instituições. Lelio pega esse fato e o transforma em cinema – e do tipo estilizado e sensorial: La Ola não é realista, mas justamente dentro do absurdo das convenções musicais tenta chamar atenção para seus temas feministas.
Porém, falta um pouco de nuance: esse é o tipo de filme que alardeia seus temas e a importância deles a todo momento, e não só isso, canta sobre eles em voz alta – comparações com Emilia Pérez (2024) até vêm à mente, mas o filme de Lelio é melhor e, ao menos, foi feito por pessoas que falam espanhol… Mas o fato é que, depois de um tempo, fica aborrecido vermos as pessoas cantando e dançando literalmente em torno dos mesmos assuntos.
O diretor parece consciente desse aspecto e tenta incluir uns momentos para quebrar isso, incluindo um divertido momento de quebra da quarta parede, em que a equipe que está filmando La Ola aparece, escancarando que estamos vendo um filme. Porém, mesmo esse momento acaba rendendo apenas isso, uma piadinha.
As canções são dinâmicas e energéticas – de novo, ponto a favor sobre Emilia Pérez e vários musicais recentes – e a atriz principal, Daniela López, carrega o filme, mas os bons momentos individuais acabam empatando com outros menos inspirados e bem didáticos, com o filme explicando para o espectador sobre o que ele está falando. Sebastián Lelio sempre é um cineasta interessante, e há brilhantismo em La Ola, mas, como musical, acaba exagerando ao tocar várias vezes as mesmas notas.











