O grande problema da franquia “Premonição” é muito simples: uma total falta de estilo e personalidade. Compare-a com outros casos de sucesso do gênero nos anos 2000: nada da elegância brincalhona de um Wes Craven em “Pânico”, nada do frenesi hiperativo de um James Wan em “Jogos Mortais”, nada do sadismo colegial de Eli Roth em “O Albergue”. Em suma: nada.
Ou melhor, nada além de um conceito inteligente — a inexorabilidade da morte é, afinal, a pedra angular do gênero — e excelentes sequências de carnificina. Tudo isso caracteriza os filmes da franquia como diversões descompromissadas de 90 minutos estreladas por rostos insossos e conduzidas de maneira mais ou menos basilar.
Claro, há diferenças entre um filme e outro, mas não estamos aqui no terreno de algo como “Missão: Impossível”, indo de um De Palma a John Woo entre filmes. Nessa toada, o melhor diretor a passar pela série segue mesmo sendo James Wong, que comandou a primeira e a terceira entradas da franquia. Ele é, ao menos, o único que consegue construir uma atmosfera palpável de suspense durante os elaborados setpieces de matança.
É por isso também que o terceiro capítulo da saga segue sendo o mais bem acabado: pense na sequência na loja de materiais de construção, com ênfase maléfica em todos os instrumentos pontudos cercando os personagens. Ou nas belas composições em widescreen empregadas ao longo da projeção, com direito a split diopter e tudo. Isso sem falar, é claro, em Mary Elizabeth Winstead no papel principal, a única atriz com algum renome a passar pela série — e o único rosto nesse rol de atores inexpressivos a deixar qualquer tipo de impressão no espectador.
O que nos traz a este “Premonição 6: Laços de Sangue”. É com alegria que lhes reporto que, quase 20 anos depois do capítulo de Winstead, temos novamente um rosto marcante no centro destes filmes. Falo de Katlyn Santa Juana, aqui interpretando Stef, a mais nova azarada a entrar na mira da morte. Santa Juana tem um talento raro: ela consegue expressar preocupação e aflição sem recair nos tiques artificiais do cenho franzido e do beicinho tremendo. Ela consegue isso graças aos seus olhos gigantes adornados por cílios pontudos, suas sobrancelhas incrivelmente expressivas, seus lábios repuxados exibindo os dentes cerrados — isso, mais aquilo que comumente chamamos de “carisma”.
Essa é a primeira novidade. A segunda vem antes mesmo de nossa protagonista entrar em cena. O filme abre não com uma visão trágica do futuro, mas com um devaneio terrível do passado. Stef vem sendo atormentada por sonhos horripilantes onde a sua avó, Isis, ainda nos anos 1960, morre, ao lado de uma penca de inocentes, no desabamento de uma torre. Não se preocupe: a matança é orquestrada com o alegre sadismo que gostamos de ver pelos diretores novatos Zach Lipovsky e Adam B. Stein.
Naturalmente, há de se questionar o uso de CGI que vem assolando a franquia em seus últimos capítulos — um corpo digital estraçalhado simplesmente não tem o mesmo impacto tátil que um manequim explodindo. Mas os diretores compensam essa perda háptica com a maleabilidade digital dos zeros e uns, capazes de fazer os corpos se dobrarem, contorcer, espremer e partir ao meio com uma frontalidade gloriosa.
Toda essa sanguinolência leva Stef a crer que a morte está de olho na sua família, o que introduz toques de melodrama familiar até então ausentes na série. É uma adição bem-vinda: pela primeira vez em mais de 25 anos de franquia, acabamos por nos importar com aqueles que morrem feito moscas na tela. Mas é um equilíbrio frágil; afinal, se nos apegarmos demais, então assistir às suas mortes não será assim tão divertido. E parte do apelo é, justamente, a diversão.
Esse malabarismo entre o novo e o velho, a fórmula batida e a subversão, até que funciona na maior parte do tempo. Ainda assim, seria interessante assistir a algum filme da saga que levasse a morte a sério. Isto é: que encarasse o sofrimento dos seus protagonistas de frente, sem piscadelas divertidas no final — que não fugisse da cena do crime e das consequências terríveis e traumáticas de tudo o que aconteceu com uma atitude engraçadinha.
Sendo filmes sobre a inevitabilidade derradeira do que nos aguarda, faz sentido que seus desfechos sejam trágicos. Mas encarar a tragédia de frente não significa se escorar num niilismo que troca o impacto do inimaginável pela ironia fácil. Retomemos a supracitada franquia “Pânico” como exemplo: se esses filmes funcionam até hoje, não é pelas piadas metalinguísticas ou pelas gracinhas ocasionais, mas pelo triste ciclo de violência do qual a pobre Sidney não pode nunca escapar. A morte sempre destrói tudo ao seu redor, mesmo que você saiba ser só um filme.
Tudo isso para dizer que, se você vai criar uma protagonista bacana, talvez possa ser mais aterrador deixar ela viver desta vez.














