Por que assistimos a cinebiografias musicais? Porque nos interessamos pela história das estrelas, porque nos importamos com sua música e, mais importante, queremos conhecer as fofocas de seus bastidores. Essas fofocas devem ser sórdidas, mas nem tanto; deve-se sempre reiterar a imagem admirável daquela pessoa, cujo status como artista genial deve permanecer incontestável ao final da projeção. Daí os moldes já batidos da ascensão-e-queda, que incluem o abuso de drogas e a redenção triunfante, a origem miserável e o enriquecimento vertiginoso, etc.

Eis que “Luiz Gonzaga — Légua Tirana” traz uma proposta diferente: a cinebiografia de Luiz Gonzaga sem Luiz Gonzaga. Isso porque o longa de Marcos Carvalho e Diogo Fontes foca na infância e juventude do Rei do Baião, antes que ele se mandasse do sertão e conquistasse o mundo. 

Essa escolha coloca o filme em maus lençóis: primeiro por ser impossível criar qualquer drama acerca do destino de Luiz, já que sabemos de antemão que ele irá se tornar o maior superastro brasileiro do século XX. Segundo, porque somos privados daquilo que, em qualquer outro cenário, seria a atração principal: o próprio Luiz Gonzaga. É sintomático, portanto, e talvez até criminoso, que só escutemos duas músicas de Gonzagão durante a projeção. 

A primeira é “Vira e Mexe”, gravação instrumental de 1941 que foi seu primeiro sucesso, e que aqui dá o ar da graça já ao final do longa, em um radinho abafado. A segunda é uma regravação da canção que dá título ao filme, nos créditos finais. E só.

Esse afastamento do artista para o menino só se justificaria se “Luiz Gonzaga — Légua Tirana” se interessasse em pormenorizar o que fez de Luiz Gonzaga, Luiz Gonzaga. Não é o que acontece. Quando, pela primeira vez, testemunhamos o garoto encostar numa sanfona, ele já é um virtuoso — graças, em parte, ao seu pai, Januário. “Em parte”, porque o que o filme sugere mesmo é que aquilo se explica pura e simplesmente pela graça divina. Seu destino está traçado, como a cigana interpretada por Cláudia Ohana chega a dizer em certo ponto. Ao espectador, resta acompanhar esse jogo de cartas marcadas sem maiores insights ou revelações.

Daí o ritmo acelerado do filme que, paradoxalmente, acelera para lugar nenhum. Exemplo máximo é o modo como até mesmo o mais secundário dos personagens tem alguma pílula de sabedoria para dar — como se, a cada cena, Luiz precisasse aprender uma nova lição. De onde decorrem pérolas como “O mundo é de quem tem coragem”, ou “O mundo é uma música”, ou ainda, a barroca frase “A vida é como lagoa assombrada: quem entra, não sai nunca mais”. Ok, então.

Some isso à inexplicável decisão de usar o obturador da câmera em velocidade alta, o que faz com que “Luiz Gonzaga — Légua Tirana” esteja mais para “O Resgate do Soldado Ryan” do que para uma biopic, e a coisa desande de vez. Como essa maior velocidade reduz o desfoque do movimento, os personagens em cena se movem de forma quebradiça, acelerada. Todo mundo parece meio louco de pó. 

Até nisso há um certo desespero em criar alguma imagem marcante, o que também  fica claro quando os realizadores lançam mão de drones, escondem a câmera atrás de cactos ou colocam os personagens em contraluz. O esforço é palpável, mas infrutífero.

E como a obra não sabe muito bem o que fazer com a figura em seu centro, resta a tentativa de mitologizar não só o artista, mas o sertão como um todo. Cangaceiros, discípulos de Antônio Conselheiro, padres malandros e cegos visionários compõem esse sertão mágico que o menino Luiz descobre em suas andanças. Nessas horas, o filme até tem seu charme, parecendo mais uma espécie de aventura infanto-juvenil do que uma cinebiografia. 

Mas o longa acelera, e acelera, e acelera, apenas para, no fim das contas, privar a gente do prazer de ver Gonzagão no palco. De que adianta?