Nunca houve na história da humanidade, ou do capitalismo, tantos bilionários – pense nisso, hoje em dia existem pessoas cuja fortuna é maior que o produto interno bruto de alguns países. E existe muito ressentimento quanto isso: embora ainda muita gente idolatre os tech bros, os muito ricos e os que prometem uma riqueza que nunca realmente virá, hoje também vivemos no mundo em que Luigi Mangione virou ídolo da internet, e até sex symbol, por assassinar um CEO de empresa de plano de saúde.
Captar esse momento é um dos maiores trunfos de Luta de Classes, a produção da Apple que marca a nova parceria entre o astro Denzel Washington e o diretor Spike Lee: juntos, eles fazem um novo filme vibrante, profundamente novaiorquino, e que fala um pouco sobre esse nosso momento histórico.
Baseado no livro “King’s Ransom” do autor policial Ed McBain, e também na adaptação para o cinema da história, feita por ninguém menos que Akira Kurosawa com o excelente Céu e Inferno (1963), no filme Washington interpreta David King, um magnata do mundo da música que um dia se depara com um dilema: um bandido tenta sequestrar o filho jovem de King, mas acaba raptando o filho do seu motorista (Jeffrey Wright) por engano. Enquanto perde sua fortuna para pagar o resgate, King acaba se “rebaixando” do seu mundo de posses para confrontar o criminoso.
É um filme meio maluco, que muda de foco algumas vezes e com sabor tipicamente “spikeleeano”, e é bom ver um cineasta veterano, já rumo aos 70 anos, ainda ser capaz de um trabalho dinâmico como este. Ele trata com reverência a história e o filme de Kurosawa, apenas adaptando a história para a cultura negra americana – e há alguns paralelos interessantes que permitem essa adaptação. A história demora um pouco para começar porque é necessária uma preparação introdutória, mas quando ela engata, Lee aproveita para criar belas imagens, cortesia do seu habitual diretor de fotografia Matthew Libatique, e imergir o espectador no universo novaiorquino.
Com diferentes formatos – digital, 16 mm – o filme brinca com imagens, desde o visual super iluminado do começo, até uns interlúdios em meio a shows musicais e, em dado momento, um divertido videoclipe. Tudo isso adiciona dinamismo ao filme, o que ajuda a balancear alguns momentos em que o personagem de Denzel, como todo bom velho, reclama da internet e da cultura das redes sociais. O filme com certeza está interessado nessa discussão, mas não se detém nela por muito tempo e acaba não se fixando apenas num discurso de “era melhor na minha época”.
Uma longa sequência do filme se passa durante um show de música porto-riquenha; depois a trilha sonora – e canções clássicas de artistas como James Brown – começa a carregar o filme, rendendo cenas empolgantes como o clímax dentro dos vagões de um trem. Em dado momento, o herói do filme embarca numa batalha de rap contra seu inimigo (vivido pelo músico A$ap Rocky, numa ótima atuação que se impõe diante de Denzel Washington). No fim das contas, é um filme vibrante, que traz algumas surpresas até para quem viu Céu e Inferno, e continua segurando o interesse do espectador mesmo quando em momentos pontuais as coisas não façam lá muito sentido lógico.
E no seu final, Lee substitui a angústia e o lado sombrio do filme de Kurosawa pelo impacto da nossa cultura de celebridades, e pela noção de que até criminosos podem virar heróis, dependendo dos likes e das suas narrativas. Spike Lee e Denzel Washington, embora hoje sejam coroas que de vez em quando reclamam da vida moderna, ainda demonstram estar com os dedos no pulso da cultura americana. No conflito de Luta de Classes, nada realmente se resolve, mas tanto milionário como criminoso acabam mudando de lugar, mesmo que temporariamente, na consciência das pessoas.













