“Cafona, previsível e uma das piores obras do autor”. Assim o cineasta Luis Buñuel se referiu ao romance Tristana, de 1892 escrito pelo romancista espanhol Benito Pérez Galdós. O mestre do surrealismo, porém, acreditava que uma adaptação cinematográfica poderia extrair algo de interessante da história de uma jovem órfã que vai viver sob a tutela de Don Lope Garrido, um homem mais velho, sedutor, de moralidade duvidosa, que assume para si a função de tutor, mas também se torna seu amante. Tudo se transforma com a chegada do jovem Horacio por quem a protagonista se atraída.
‘Tristana, uma Paixão Mórbida’ é uma adaptação, densa, obscura e elegante em superfície, mas no fundo, fraca e sem alma. Luis Buñuel poderia aproveitar a trama para desencadear um romance mexicano bem dramático, porém, os 100 minutos da obra são de pura apatia.
O tom “mórbido” anunciado pelo título é mais sugerido do que efetivamente construído. Apesar do potencial, o roteiro se mostra simplório, incapaz de explorar de forma convincente os conflitos psicológicos que as personagens parecem enfrentar. Suas motivações surgem esquemáticas, sem alma e sem conexão com quem as presencia. Nunca se sabe o que as personagens sentem, já que são todos frios, apáticos, até em cenas de romance.
A obsessão de Don Lope por Tristana carece de nuances, reduzida a um comportamento possessivo que nunca evolui dramaticamente; já a nossa protagonista, por sua vez, permanece como uma figura quase passiva, cuja transformação se dá de forma abrupta e pouco justificada. O roteiro acomoda-se em um esquema previsível de vítima e algoz. Aliás, ‘Tristana, uma Paixão Mórbida’ apresenta estereótipos conflitantes com o livro, em que Tristana é retratada como uma feminista feroz, e no longa, ela é apenas amargurada. É curioso como seu arquétipo de independência foi jogado fora, enquanto Don Lope é até bem carismático.
Buñuel constrói o filme com uma atmosfera que poderia ser carregada de tensão ou sensualidade, mas que raramente se concretiza, deixando a trama esvaziada de alma e de impacto. A presença de Catherine Deneuve e Franco Nero, embora impecáveis em aparência, pouco conseguem fazer para driblar a superficialidade das interações. Detalhe que Deneuve ainda foi dublada na edição final, o que deixou tudo mais robótico ainda.
Tecnicamente, a direção é antiquada. Montagem sem ritmo e cortes amadores tornam o filme refém de uma estética previsível e sem graça. O que poderia ser um estudo perturbador sobre desejo, poder e decadência moral transforma-se em um exercício morno, preso a formalismos.
‘Tristana’ falha em mergulhar na complexidade psicológica de seus personagens e carece de energia narrativa, mas assim como o assunto da coluna anterior, ‘Gilda’ (1946), possui um certo charme e elementos (Catherine Deneuve, Fernando Rey) que obliteram a experiência de ser um completo fracasso. Pode ser cafona e previsível, mas não é uma das piores obras do autor.














