A primeira imagem de “Manas” mostra Marcielle (Jamilli Correa), 13 anos, enquadrada pela janela de seu casebre, presa. O restante do filme trata de empilhar os tijolos que formam sua prisão. O tema é o abuso infantil, então o espectador já sabe onde está se metendo. O que não sabemos é qual vai ser a abordagem da diretora Mariana Brennand Fortes: se o grotesco fácil de um Cláudio Assis ou o naturalismo de grife, mandatório nos festivais.
Por boa parte da projeção, “Manas” surpreende porque, mesmo pendendo para a última opção, o filme evita as armadilhas típicas do filme-denúncia: a mão pesada quase exploratória, a retórica emotiva fácil para o público de shopping, uma certa condescendência miserabilista etc. Se evita, ao menos parcialmente, esses óbices, é porque as interações entre Marcielle e suas manas são muito bem observadas.
Detalhes como a pervasividade do neopentecostalismo nas várzeas ribeirinhas, as tardes assistindo a novelas graças aos geradores e os desafios usuais da puberdade em uma comunidade isolada nos mantêm interessados. Ajuda que a jovem Jamilli Correa seja uma ótima âncora: longe das afetações dos atores mirins, ela é simplesmente uma garota pubescente passando por toda a confusão da idade.
E então, há os abusadores que a cercam. “Manas” faz um bom trabalho ao mostrar como a realidade do abuso — fato sabido por todos da comunidade, mas mantido sob os panos — transpassa as diversas esferas da região: as meninas sofrem diante de uma estrutura que normaliza o silêncio dentro de casa, enquanto, na esperança de fugir, são obrigadas a embarcar nas terríveis balsas trazendo os trabalhadores manauaras, onde se prostituem.
Entre cenas bem observadas do dia a dia de Marcielle e episódios de revirar o estômago, o filme vai se equilibrando com certo sucesso. Parece mesmo que, dessa vez, teremos uma obra que vai causar certo impacto, deixar uma marca, colocar questões difíceis marinando na nossa cabeça. Até uma virada envolvendo a personagem de Dira Paes pôr tudo a perder.
A atriz vinha sendo uma presença periférica em “Manas”. Mas, quando, de modo quase fantástico, é colocada em uma posição heroica pela trama, a coisa desanda de vez. Sua presença estelar destoa da crueza do todo construído até então; as frases de efeito que saem da sua boca denotam um senso melodramático que não figurava no que vínhamos assistindo. É como um violino desafinado no meio da orquestra: a incongruência é tão gritante que fica difícil até de olhar.
Daí em diante, não há mais nada que o longa possa fazer senão caminhar, com bastante fatalismo, ao desfecho que já se avizinhava desde o início da trama. Ou seja, fomos enganados: “Manas” está mesmo satisfeito em ser tudo o que você já esperava de um filme-denúncia. Talvez, quem sabe, seja justamente essa previsibilidade fácil que torne um tema espinhoso desses minimamente palatável para o grande público.













