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Os primeiros minutos de Thelma dão a deixa para o que vem adiante: a personagem-título está fazendo seu tricôzinho, sentada no sofá de casa, ao lado do neto, assistindo Ethan Hunt correndo e pulando de um prédio para outro em “Missão: Impossível – Efeito Fallout”. Os dois comentam sobre a longevidade e a loucura de Tom Cruise em fazer as sequências de ação sem dublês.
A homenagem não está ali à toa: a comédia dirigida por Josh Margolin brinca com o universo dos filmes de espionagem à la “M.I”, James Bond e a série Bourne colocando como protagonista uma senhora de 93 anos de idade, morando sozinha após ficar viúva do marido com quem era casada há 68 anos. A missão não é salvar o mundo, mas os US$ 10 mil que Thelma deu a um golpista safado ao ser enganada em uma ligação telefônica (pensava que isso era privilégio brasileiro?).
Agora, se Tom Cruise, Daniel Craig e Matt Damon escalam montanhas, enfrentam os homens mais fortes do mundo na mão, correm quilômetros por cidades paradisíacas sendo alvo de tiros por todos os lados e escapam ilesos, os desafios de Thelma são mais corriqueiros, mas não menos desafiadores para ela. Estamos falando de atravessar quarteirões sozinha, aprender a fechar uma propaganda indesejada com um X invisível que aparece no pior momento, mexer na rede social, subir em uma cama e se pendurar para pegar uma arma no alto do armário e fugir de um asilo em uma ‘potente’ lambretinha que mal chega a 35 km/h.
A paródia não impede constatações duras sobre a finitude da vida, a fragilidade da velhice, a solidão das partidas de toda uma geração, onde todos aqueles que você conhece se foram ou estão abandonados, como na sequência brilhante na casa de Mona (Bunny Levine). Aliás, é ali que Thelma atinge o auge do brilhantismo na combinação de drama com humor, ao emocionar mostrando aquela senhora ali sozinha com as baratas, mas terminando na hilária busca pela arma.
A maior sorte do filme, sem dúvida, está em ter June Squibb para conduzir a história de forma brilhante. Com 95 anos de idade, a estrela, que já havia dado mostras de ser um talento para o humor com “Nebraska”, aqui carrega Thelma nas costas com uma vitalidade impressionante, transitando da comédia para o drama na mesma cena em um piscar de olhos. Uma das maiores atuações do cinema em 2024, independente de indicações na temporada de premiações.
Thelma pode não ser brilhante – há um tédio enorme toda vez que o filme deixa a personagem principal para se concentrar nas inseguranças do neto ou nos excessos de cuidados dos pais do rapaz, forçando, sem necessidade, um discurso que liga diferentes gerações –, mas não cai em discursos piegas nem politicamente corretos sobre etarismo. Com bom humor e inteligência, há um olhar realista sobre esta etapa da vida, que exige, sim, cuidados, mas pode ser vivida com pequenas doses de aventura.













