Recentemente, chegou ao fim na Rede Globo, a novela Três Graças. A trama principal era sobre três mulheres, mães solos e os desafios que enfrentavam para sobreviver. Bom, até certo ponto. Depois virou uma teia de redenção para os homens de caráter duvidoso que as puseram naquela condição. Mas o que isso tem a ver com Margô está em Apuros? É que de certa forma, a série da Apple TV acaba indo para o mesmo lado.
Baseada no livro de Rufi Thorpe e adaptada por David E. Kelley (Big Little Lies), a série de oito episódios acompanha Margô (Elle Fanning), aspirante à escritora que abandonou a faculdade devido a uma gravidez inesperada. Diante do bebê, uma pilha crescente de contas e poucas opções para pagá-las, a jovem precisa encontrar um caminho a seguir.
Começo avisando: não é uma crítica negativa. Eu gostei muito de “Margô está em Apuros”, assim como de “Três Graças”, mas sim, tem alguns pontos que me incomodaram. Um deles é que às vezes o enredo não parece nem ser sobre os apuros de Margô.
Logo no primeiro episódio, vemos uma jovem Margô, ainda inocente e sonhadora, se relacionar com o professor de faculdade, o que resulta numa gravidez não planejada. Obviamente, ele recusa assumir a paternidade. A partir daí, a jovem entra em uma espiral de situações desagradáveis, tendo que abandonar a faculdade, o sonho de se tornar uma escritora (e isso aparentemente era pra ser um dos nortes da história, mas falaremos mais à frente), além da figura exótica e complicada da mãe (Michelle Pfeiffer) e os desafios de se tornar uma mãe solo de primeira viagem.
Até então, a história parece que seguirá por esse caminho, mas isso é jogado para escanteio e o que realmente vemos por dois episódios é como Jinx (Nick Offerman), pai da protagonista, até então ausente da vida de Margô, retorna arrependido e como ela está de braços abertos para recebê-lo. A jornada da personagem de Fanning é eclipsada em prol da luta de Jink em se manter sóbrio e do casamento da mãe com um pastor, que nada acrescenta à história além de uns poucos momentos cômicos. O que realmente aconteceu com os apuros de uma mãe solo na sociedade hostil em que vivemos? E os sonhos de Margô de se tornar uma escritora?
Em meio a tudo isso, com problemas financeiros e discriminada em busca de emprego por ser uma mãe solteira, a nossa protagonista cria uma conta no OnlyFans. A partir disso, Margô está em Apuros ganha uma dosagem cômica mais latente do que nos primeiros episódios, ainda que não vejamos as reais consequências dessa aventura até aos derradeiros capítulos. Por um momento, vemos a protagonista finalmente ter um momento de alívio e sua empreitada de certa forma ressuscita seus dons de escrita, ainda que de forma irrelevante para a história com desenvolvimento bem aquém do que poderia ser.
Vivemos uma epidemia de criadores de conteúdo para as redes sociais. Diariamente somos bombardeados com notícias que esses criadores possuem patrimônios milionários. Uma das vertentes desse conteúdo é o sexual. Achei muito interessante a forma como a série o incluiu na narrativa, principalmente porque não faz juízo de valor, afinal ninguém tem o direito de dizer o que cada um deve ou não fazer com o seu corpo. O foco é exclusivamente em Margô e como aquela situação a rodeia. O pai compreende, a amiga ajuda a gravar, a mãe rejeita e não vemos uma real problemática até o sexto episódio, quando envolve a vida pessoal e o filho de Margô.
Talvez até seja melhor para a série não abordar profundamente todos os prós e contras de se trabalhar com conteúdo adulto, visto o furor negativo causado na vida privada da jovem pelo seu trabalho ser rapidamente ofuscado pela recaída do pai às drogas. Assim seguimos até o último episódio, com um enredo familiar tendo mais destaque que o quase manifesto feminista para mães solo que pensamos em presenciar lá no começo. É falho Jinx ter tanto destaque quanto Margô. É falho o roteiro nunca ir a fundo em Shyanne (Michelle Pfeiffer), sua jornada como mãe solo em criar Margô, a inexistência de um confronto com Jinx por todos esses anos e relegá-la à um casamento sem importância com um personagem de menos ainda.
Depois de tudo isso, parece ter sido um fardo assistir aos oito episódios, mas na verdade, eu gostei bastante. A série é colorida, divertida, realmente agradável de se assistir. A direção tem escolhas bem ousadas para uma série cômica, acenando para o cinema americano oitentista: muitas luzes, letreiros, cores vibrantes. Nenhuma situação é realmente irreal e mostra que a vida não é feita apenas de tragédias ou momentos felizes, mas sim a mistura desses elementos que a torna o que é. A trilha sonora também é um destaque a parte, incorporada a realidade das personagens e com uma curadoria menos óbvia, indo de Robyn à Dire Straits.
É também mérito do incrível elenco. Sou suspeito para falar de Elle Fanning: ela talvez seja a minha atriz favorita com menos de 30 anos e finalmente é uma indicada ao Oscar! Margô por si só já é uma personagem interessantíssima, imperfeita e impulsiva, faz rir e se emocionar e a estrela a torna ainda mais esfuziante com um trabalho cheio de carisma e nuances para as fases que a personagem atravessa.
Michelle Pfeiffer é outro destaque como a mãe de Margô, Shyanne. Ainda que o roteiro, ao meu ver, não tenha nem chegado perto de explorar tudo o que a atriz e a personagem poderiam oferecer, a veterana ainda encontra espaço para brilhar, principalmente nas cenas de embate com a filha. Shyanne me lembra a mãe de Matilda, do clássico homônimo de 1996, com a diferença de que ela realmente ama a filha. Ainda temos Nicole Kidman em uma participação pra lá de especial. Dessa vez, ela encarna uma ex-profissional de luta livre e atual advogada, incrementando sua vasta e nada óbvia galeria de personagens.
Há algumas semanas, a Apple TV renovou a série para uma segunda temporada. Talvez seja a oportunidade de aparar algumas arestas soltas e retomar os sonhos de Margô, afinal, ela já tem uma rede de apoio. E também o que o futuro como criadora de conteúdo reserva não somente à ela, mas a nós.















