O mundo cinéfilo tem uma tradição: todo mês de maio, resgata-se o vídeo de horror do público chocado com “Irreversível” e a chocante cena em que a personagem de Monica Bellucci é estuprada de forma bruta no pesado drama de Gaspar Noé. Não fosse a plateia do Teatro Amazonas formada em grande parte por amigos da equipe de “Mawé”, acredito que reação semelhante seria possível.
Sim, haveria as carolas conservadoras chocadas com as cenas de sexo e drogas aos montes, ou a turma que gosta de ver um filme de narrativa clássica, indignada com a porralouquice. Se fosse por isso, o longa-metragem dirigido por Jimmy Christian, que celebra a cena underground e os inferninhos de Manaus, seria um desafogo bem-vindo em uma cidade dominada pela caretice neopentecostal coach nossa de cada dia, em que a arte necessita ser bela para ser útil (argh!).
Durante 20 minutos, “Mawé” até insinua que pode ser este filme sem limites, disposto a desafiar seu público a cada segundo. É quando o próprio diretor Jimmy Christian aparece em cena, no melhor estilo Dennis Hopper transtornado e totalmente drogado, amigo do personagem-título (Afrânio Pires). Temos ali uma versão manauara de “Medo e Delírio em Las Vegas”, em uma vibe lisérgica e amoral, seguindo dois sujeitos buscando as piores situações possíveis. Dos bares às ruas mal iluminadas, passando pela violência urbana, à misoginia e homofobia, até chegar à velocidade do trânsito louco e fatal da capital, o longa pira sem pudores. Atinge o ápice disso ao jogar com “Crash – Estranhos Prazeres”, de David Cronenberg, em que a brincadeira ganha contornos definitivamente perigosos.
Digo perigosos porque, se por um lado é elogiável que “Mawé” não caia em discursos moralistas de condenar as atitudes dos dois, o que trairia a essência da obra, por outro lado, questiono seriamente se o filme não os vangloria e vê tudo aquilo como uma grande série de pegadinhas divertidas. Este incômodo cresce quando se analisa o filme como um todo em relação ao que será o centro da trama depois deste momento: a “”””””paixão””””” do protagonista por Luciana (Alice Toledo).
Impossível não sentir o mínimo de incômodo em certas passagens em que o roteiro, também escrito por Jimmy, romantiza a postura de stalker e, posteriormente, de sequestrador do protagonista. Todo o ato final pega as piores problemáticas vistas em obras como “A Bela e a Fera” – fantasiar em cima de uma relação abusiva marcada por violência psicológica e a idealização de que a mocinha pode ser a salvação do pobre rapaz incompreendido – e coloca de forma quase que irresponsável para criar um drama que seria risível, não fosse o absurdo mostrado. A falta de capacidade de articulação de um discurso minimamente coerente mesmo dentro de toda a loucura, aliás, faz “Mawé” assumir uma posição à beira da misoginia em relação à forma como as mulheres são retratadas como se estivessem ou à beira do cio ou totalmente idealizadas quase como uma Branca de Neve.
A desgraça, entretanto, não termina por aí: “Mawé” conta a história do personagem-título, um rapaz que foi expulso da aldeia onde vivia por não conseguir completar o ritual da tucandeira, praticado há séculos pelos Sateré-Mawé, marcando um rito de passagem que simboliza a transição dos meninos para a vida adulta. Com isso, só resta a ele vir para Manaus, onde, ainda jovem, acaba sendo cruelmente agredido por uma turma de patinadores em pleno Centro. Para esconder as marcas da agressão, decide tatuar todo o rosto. A história já está na fase adulta dele.
Qual a ideia do roteiro? Associar esse fracasso no ritual da tucandeira com um desfecho simplesmente aterrador do relacionamento entre Mawé e a protagonista. Não sou antropólogo, muito menos estudioso das cosmogonias indígenas, mas o que vejo no filme é uma tentativa completamente desastrada de relacionar os assuntos de forma totalmente superficial e, principalmente, desrespeitosa – tanto com os Saterés quanto em relação às mulheres (aliás, o desfecho da cena do banheirão possui caminho perigosamente semelhante a esta aqui). Tudo isso é agravado pela incapacidade total de se desenvolver minimamente quem aquele protagonista é – não é porque um personagem passa grande parte do tempo calado que não há maneiras de fazê-lo.
Poderia ainda falar por horas do caos visual e sonoro, de uma obra caótica em termos de montagem e decupagem, feita ora com esmero, ora de qualquer jeito, de uma clara parceria entre amigos que vale tudo e mais um pouco, mas este é o cinema de Jimmy Christian – sempre foi e sempre será. Tem momentos que funcionam, como em “Zico – O Jabuti”, “Reflexos da Cheia” e, relativamente, em “O Desentupidor”, mas aqui passou muito longe. “Mawé”, para ser uma homenagem ao Cinema Marginal, precisa, antes de tudo, ser um filme. Afinal, quando você precisa explicar (bem mal, diga-se) a síntese da tua obra no letreiro final, é que deu tudo errado.















Caio e os mimades do cine set, em termos de crítica cinematográfica profissional, sempre serão a mosca que voa sobre o cocô do cavalo do bandido em um filme B. Charlatões cinéfilos metidos a geração Nouvelle vague, nunca passarão daquilo que nasceram, um monte de pivetes de jornal de 50 centavos que receberam meia página por falta de anúncio.