Mestres do Universo é um filme bobo, não há como fugir disso. Porém, o maior mérito da produção é que seus realizadores têm consciência da tolice que é fazer um longa multimilionário a partir de um desenho animado bobinho dos anos 1980. Com isso, eles abraçam a bobagem sem qualquer vergonha. O clima de galhofa, à la Thor: Ragnarok (2017), acaba dando resultados e o resultado é um filme para crianças que, se não brilha, pelo menos não irrita.
Baseado na animação He-Man e os Mestres do Universo, que por sua vez tinha como base uma estranha linha de brinquedos criada pela empresa Mattel, que por sua vez foram criados como linha de bonecos do filme Conan, o Bárbaro (1982) com Arnold Schwarzenegger – sério, se você não conhece essa história, pesquise, é muito interessante – este novo filme adapta a clássica luta do Bem contra o Mal no planeta Etérnia para a atualidade. O longa começa com um prólogo até excessivamente longo, estabelecendo o reino de Etérnia, o poder do Castelo de Greyskull e o ataque do maléfico Esqueleto para tomar o controle daquele mundo. Tudo apresentado, no início, por aquele velho e cansado recurso da narração em off.
Depois de um bom tempo de tela, o pequeno príncipe Adam vem para o nosso planeta, fugindo do ataque das forças do Esqueleto, e ao crescer se torna um jovem funcionário de Recursos Humanos de uma empresa. Adam (vivido por Nicholas Galitzine) é tido como maluco por acreditar em Etérnia, mas acaba embarcando numa aventura em busca da Espada do Poder quando é levado de volta ao seu mundo.
O diretor Travis Knight – que fez o divertidinho Bumblebee (2018) e a interessante animação Kubo e as Cordas Mágicas (2016) – sabe exatamente para quem está fazendo esse filme, além dos executivos da Mattel, claro. Mestres do Universo é uma obra pós-moderna, no sentido de que muitas coisas nele são referências: a figura do Conan é referenciada em um tipo de piada interna; Dolph Lundgren, que fez o He-Man no Mestres do Universo (1987) antigo, aquela pérola do cinema de gosto duvidoso, aparece numa ponta aqui que faz praticamente a história parar; os elementos visuais de Etérnia como paisagens e naves parecem aquelas que já vimos, por exemplo, em Avatar (2009) ou nos filmes do Marvel Studios; Highlander: O Guerreiro Imortal (1986) e sua trilha sonora do Queen são referenciados; e toca o hino “What’s Up” da banda 4 Non Blondes (And I say, hey, hey, hey, what’s going on…). É a maior bomba concentrada de nostalgia vista no cinema blockbuster desde o lançamento de Star Wars: O Despertar da Força (2015).
Felizmente, Knight e sua equipe mantém a história em um ritmo sempre propulsivo, então essas referências acabam fluindo bem. E outro grande trunfo da produção é o seu elenco: Galitzine é divertido e funciona bem com a Teela de Camila Mendes; Idris Elba repete as suas figuras de autoridade, agora com uma dose de humor como Mentor; e até o Jared Leto diverte como Esqueleto – ele faz a voz e o personagem por captura de movimento, e talvez ajude na sua performance o fato da sua personalidade natural de diva combinar com o vilão. Todos estão bem ajustados no modo de “filme para crianças” e o carisma dos atores segura as pontas e ajuda na experiência.
E é curioso ver como o roteiro consegue, de forma orgânica, inserir os elementos tolos do desenho animado, ao mesmo tempo em que coloca, como subtexto, uma discussão bem moderna sobre o papel do herói masculino. A jornada do He-Man no filme não é somente usar a força, mas combiná-la com empatia e sensibilidade. É a história de um fortão com tanguinha que aprende a ser um macho moderno e desconstruído: claro, essa mensagem é bem mastigadinha ao final da história, mas ainda assim é uma noção interessante para se incluir num “filme de boneco”. Herança de Barbie (2023), também baseado num brinquedo da Mattel, e que promovia uma discussão sobre o papel dos gêneros que ressoou junto ao público, e até incomodou parte dele.
No entanto, falta em Mestres do Universo a verve levemente ácida de Barbie e um texto mais apurado. Por mais que o roteiro inclua boas sacadas e piadas, ele é também muito previsível e com estrutura muito manjada – é aquela velha jornada do herói que já vimos centenas de vezes antes. Se o espectador assistiu a meia dúzia de blockbusters dos últimos anos, consegue adivinhar tudo o que acontece no filme. As cenas de ação são sólidas, e a recriação live-action de alguns personagens bizarros da série animada ficou bem interessante, na maioria dos casos. Mas é um esforço às vezes em vão, dada a previsibilidade da trama.
No fim, o que se tem é um filme que até diverte, mas para o qual um pouco mais de ousadia faria bem. E apesar de algumas ótimas sacadas – como a dos nomes bobos dos personagens serem produto da mente de um menino sozinho e traumatizado – a impressão é de que o filme acerta nos detalhes, mas os insere num todo – a trama – que é clichê e mastigado demais, e ainda por cima possui furos bem evidentes. Mestres do Universo não ofende, mas também não alça voo: é um filme que parece querer ser irreverente, mas que também parece, em alguns momentos, sentir o peso da corporação por trás dele e das suas obrigações como parte da grande máquina de franquias que é a Hollywood moderna. Tal como o seu herói, é um filme dividido e em conflito.














