É interessante notar que, de um ano para cá, o cinema, de maneira geral, tem dado vazão a filmes que analisam o papel masculino a partir das suas fragilidades, mostrando as tensões oriundas dessa inadequação social. Ataque aos Cães, Baby, Oeste Outra Vez e As Bestas são ótimos exemplos da safra recente que desvendam a masculinidade por meio das relações agressivas dos homens com o contexto social.

Do último citado, Acabe com Eles, filme produzido pela plataforma MUBI, é o que mais se aproxima, em temática, da obra francesa, ao situar a relação entre homens no meio rural para construir um thriller de suspense com ecos de faroeste intimista, onde o jogo político entre seus atores sociais expõe as questões de gênero: de um lado, homens embriagados pela selvageria e pelo orgulho pessoal, do outro, mulheres que observam esse contexto sem conseguir intervir para dar uma lógica a esse campo colérico, caracterizado pela impulsividade masculina.

No filme, duas famílias que criam ovelhas no interior da Irlanda são rivais. Michael (Christopher Abbott, de O Lobisomem), possui um passado violento e uma antiga namorada (Nora-Jane Noone, de O Abismo do Medo), que se casou com seu inimigo e vizinho, Gary (Paul Ready), pai do jovem Jack (Barry Keoghan, de Saltburn). Quando as ovelhas de Michael aparecem mortas de forma cruel, a relação entre eles se torna insuportável.

Um olhar sobre a masculinidade violenta

Acabe com Eles marca a estreia de Christopher Andrews na direção, após ter realizado dois curtas-metragens. E, já no seu trabalho de estreia, ele revela um pleno domínio cênico sobre seu material de estudo – a masculinidade violenta – para manipular as emoções do público neste cenário rural enervante, onde os homens ditam as regras e a estrutura de poder que rege o lugar.

Vale destacar que o cineasta amplia, nesta ambientação de dureza, o sentimento de isolamento por meio de uma cinematografia autêntica, cuja fotografia ressalta a beleza e a secura da paisagem irlandesa, semelhante ao que Os Banshees de Inisherin fez há três anos. Além disso, a trilha sonora incômoda de Hannah Peel, conseguindo instigar o nível de tensão e medo que a obra provoca, evidenciando o talento de Andrews em fazer imagem, som e fotografia dialogarem bem com a turbulência interna dos personagens sugeridas pelo roteiro escrito por ele e Jonathan Hourigan.

A partir deste elemento central das tensões entre os homens do campo, que norteia a narrativa, Acabe com Eles se revela uma dessas obras fílmicas tensas, com um grau enorme de complexidade no seu comentário social sobre a violência, ditada pela brutalidade, pelo sangue e pela disputa territorial, reflexos da imposição masculina.

É interessante como o filme ressignifica a estrutura do western para desconstruir a masculinidade mais primitiva, ressaltando os laços familiares como o transmissor virótico dessa violência e intolerância. Michael herdou do pai as marcas e rancores da vida, enquanto Jack indica seguir essa mesma tendência, ilustrando que os ciclos familiares são responsáveis pela repetição do círculo autodestrutivo que gera as tragédias pessoais que veremos na obra e que unem os dois protagonistas.

O mundo dos homens gerando o horror frente à natureza e aos animais

É impressionante a maneira como Andrews encena os momentos de horror real – a sequência de ataque às ovelhas se torna uma das cenas mais incômodas do ano – a partir de situações ao ar livre ou em campo aberto, trazendo minuciosamente a ideia de que a paisagem é testemunha ocular da liberdade que os homens têm para fazer o que querem, e, principalmente, do jeito que acham certo.

Por isso, é uma pena que o roteiro escolha fragmentar a narrativa em dois pontos de vista (o chamado efeito Rashomon) para fazer o público assimilar as jogadas do tabuleiro de xadrez dessa rivalidade masculina e aproximar ambos os personagens em suas semelhanças psicológicas.

O problema principal é a forma como isso é dimensionado. Se a estrutura de Michael recebe um tratamento de estudo de personagem muito eficiente para compreendermos as consequências emocionais (e até mesmo criarmos empatia por ele) que surgem quando a violência se torna uma resposta ao seu trauma juvenil, a de Jack, apesar de ter uma narrativa sombria em torno de um adolescente em busca de aceitação do pai, que pratica a violência para ganhar reconhecimento dele e assim amenizar a sua dor, se apresenta apressada na construção do conflito do jovem. Isso acaba por atrapalhar a escalada de violência no último ato, deixando um sentimento de desproporcionalidade entre a jornada dele e a de Michael.

As performances são uniformemente poderosas, com cada ator apresentando um retrato cheio de nuances na carga emocional, sendo o grande destaque Christopher Abbott, que finalmente ganha um espaço como protagonista para brilhar, através de uma atuação intensa. Ao lado dele, ainda que fique em desvantagem devido a um personagem pouco desenvolvido pelo texto, Barry Keoghan ilustra outra figura estranha em sua filmografia e se sai bem por potencializar os sentimentos do seu personagem nas expressões não corporais de Jack.

Ao fim, Acabe com Eles se revela um belo exercício sobre a masculinidade arbitrária praticada pelos homens, a partir do seu desejo íntimo, que legitima a liberdade de praticar a violência dentro do contexto social. Christopher Andrews destaca, nesta relação de poder e orgulho, como os mal-entendidos podem ficar fora de controle quando as pessoas não se comunicam e as percepções são distorcidas. Não deixa de ser um filme pesado e difícil de ser digerido.