Os primeiros minutos de Avatar: Fogo e Cinza deixam um gosto amargo. Primeiro porque estamos de volta ao tenebroso mundo do high frame rate, talvez a única aposta errada em toda a vida de James Cameron. Já está ficando batido dizer que o HFR parece a junção entre uma série de TV e um videogame que você não pode jogar. Essa é a primeira coisa.
A segunda é que o drama da família Sully é construído de forma, no mínimo, irregular. Cameron se sai muito bem lidando com as questões de Jake (Sam Worthington), com toda sua rigidez militar, e Neytiri (Zoe Saldaña), com seus complexos sentimentos em relação aos filhos meio-humanos. Mas ele não é capaz de escrever uma interação convincente entre dois adolescentes por nada nesse mundo.
Os personagens ficam então à mercê do talento e carisma dos intérpretes. Não dá para dizer se Britain Dalton, que interpreta Lo’ak, é bom ou mau ator; estamos vendo o sujeito pela primeira vez com esses filmes, debaixo de quilos de maquiagem digital azul. Angústia adolescente é um saco, seja aqui ou em Pandora, e talvez falte um algo a mais a Dalton que o permita superar o esquematismo do drama.
Com Jack Champion, que interpreta Spider (nosso branco de dreads), é a mesma coisa. As habilidades de Cameron ao escalar elenco oscilam loucamente. Ele é capaz tanto de meter um Arnold Schwarzenegger e uma Linda Hamilton em seu “O Exterminador do Futuro”, como de trazer o insosso Sam Worthington para o centro da franquia mais rentável do cinema. Por outro lado, o fato de que Worthington só se torna suportável em tela quando trabalha com Cameron talvez dê uma noção do valor do diretor.
Relendo minha crítica sobre o filme anterior, fico impressionado com os ares de ode apaixonada que aquele texto ganhou. Tudo que aponto aqui como problema já estava presente em “O Caminho da Água”. Durante os primeiros minutos de “Fogo e Cinzas”, a gente chega mesmo a pensar: não é que as engrenagens estejam à mostra, elas sempre estiveram; é que elas parecem começar a enguiçar.
Por isso, se Cameron se limitasse a repetir a estrutura dos filmes prévios (o que ele faz) enquanto apenas introduz novos bichinhos alienígenas (o que também faz), o terceiro capítulo seria indicativo de que chegamos ao limite. Mas, mais do que isso, Cameron está preocupado em levar o melodrama a níveis tão espetacularmente intensos que “Fogo e Cinzas” se transforma no filme mais fora-da-caixinha da franquia.
Em linhas gerais, é a história de sempre. Os humanos querem minar todos os recursos naturais de Pandora, e Jake e sua trupe precisam detê-los. Desta vez, somos apresentados ao povo do fogo, os Na’vi mais sinistros que vimos até então, liderados pela temível Varang (Oona Chaplin, que merece todos os prêmios do mundo pela proeza de tornar sua personagem digital azul-cinzenta em uma criatura genuinamente sexy). Revoltados com Deus (ou, nesse caso, Eywa) e o mundo, Varang se une ao Cel. Quaritch (Stephen Lang, que a essa altura pode fazer seu papel de vilão até mesmo dormindo) para mandar bala em qualquer Na’vi que encontrar pelo caminho — especialmente Jake.
A ameaça à Pandora sempre serviu de espelho para o colapso climático em curso na Terra. Mas, enquanto um cataclisma ambiental é direto o bastante para funcionar nesse esquema “um para um”, o racismo é um tópico que exige mais cuidados. Fazer a analogia entre os Na’vi e os povos indígenas da Terra é estranho, pelo simples fato de que os Na’vi são, literalmente, alienígenas, o Outro. Qualquer comparação que se queira construir com o racismo terrestre se torna frágil, sob o risco de tornar a discriminação entre humanos algo biologicamente fundamentado — já que os Na’vi são, esses sim, biologicamente diferentes de nós. Tenho minhas dúvidas quanto à produtividade dessa associação entre alienígenas e indígenas.
Mas tudo isso fica em segundo plano: em “Avatar”, o drama serve ao espetáculo, e não o contrário. Não apenas o espetáculo dos navios flutuantes movidos a arraias translúcidas voadoras, ou das baleias colossais explodindo navios de guerra, ou de helicópteros militares e dragões alienígenas partindo às vias de fato nos céus de Pandora. Mas também o espetáculo dos pequenos prazeres hápticos do mundo virtual de Cameron e cia.: o suor na pele azul-brilhante dos Na’vi, as rugas nas suas testas, as membranas úmidas das tais arraias voadoras. É preciso, então, criar um modo dramático que seja tão intenso quanto a experiência sensorial oferecida.
Felizmente, ao longo das três horas seguintes, Cameron vai introduzindo suas esquisitices: a tensão sexual entre Quaritch e Varang (francamente, bem melhor que aquela pataquada que vimos entre Sean Penn e Teyana Taylor em “Uma Batalha Após a Outra”), um adolescente contemplando o suicídio com um fuzil high-tech, transes mediúnicos, viagens de Ayahuasca…
E mais: a septuagenária Sigourney Weaver, num avatar alien pubescente, beijando o que, na trama, é um adolescente humano; sem falar no contato com Eywa, a deusa dos Na’vi, que, numa apoteose climática e espiritual, nos é mostrada à la bebê gigante no final de “2001”.
Se o espetáculo em “Avatar” é simplesmente sem par em termos de realização técnica, então o desafio de Cameron é encontrar um modo dramático à altura. Por isso aqueles primeiros 20 minutos do longa incomodam. O problema não é que o melodrama familiar esteja presente; é que, em seus primeiros movimentos, ele ainda seja certinho demais. O que faltava era intensificá-lo até a bizarrice ser elevada a uma nova potência. Dito e feito: “Avatar: Fogo e Cinzas” é o longa mais desconcertantemente bizarro da franquia.











