Narciso, novo filme do cineasta Jeferson De, toma emprestado o mito grego do personagem que adora a si mesmo e acaba por ser destruído por isso, e o usa para comentar sobre questões de identidade, aceitação e racismo dentro da realidade brasileira de pessoas negras e pobres. E é um filme com registro bem naturalista que, a partir de certo momento, tem a coragem de dar uma guinada para o fantástico. Pena que na construção desta fábula, o longa não consiga trabalhar suas ideias e temáticas a contento, resultando num trabalho que é eficiente e feito com inegável carinho, mas leve e raso demais na sua proposta.

O filme nos apresenta ao Narciso do título aos poucos: Logo no começo, um close prolongado dele (interpretado por Arthur Ferreira) força o espectador a aceitar aquele rosto, o qual o próprio personagem-título não aceita. Narciso é um jovem que mora numa casa junto com outras crianças e adolescentes à espera de adoção. A casa é administrada por Carmen (a carismática Ju Colombo), e todos ali formam uma espécie de família improvisada.

Narciso já começa o filme como rejeitado, sendo devolvido pela família que pensou em adotá-lo. Mais tarde acontece uma guinada no filme, uma virada fantástica que tem a ver com o personagem de Seu Jorge, e o então jovem se vê numa outra realidade.

Existe um problema de roteiro fundamental que impede que Narciso, o filme, de alcançar o potencial que poderia ter: na primeira metade do filme, mal passamos tempo com o próprio personagem-título. Narciso aparece pouco, fala menos ainda, e Carmen e até outros personagens têm mais tempo de tela e desenvolvimento do que ele. Nosso protagonista é, no fim das contas, um não-personagem, uma entidade vaga. Então, quando ele embarca na sua outra vida, na segunda metade da história, essencialmente o espectador não tem onde se apoiar para sentir como as diferenças entre os dois mundos afetam o personagem.

O naturalismo do início dá lugar a um mundo em preto-e-branco – o filme tem um ótimo trabalho de fotografia de Lílis Soares, um visual quente e acolhedor no início e frio e estéril no segundo momento. Mas o roteiro e a encenação optam pelo caminho mais fácil para retratar a fábula e a sua “moral da história”. Os simbolismos são bem didáticos: há uma cena em que vemos os jovens negros assistindo TV e aparece uma família branca e rica de comercial de margarina. Narciso nos mostra a dor de personagens que vivem num mundo onde são rejeitados, onde até as histórias que são consumidas não trazem nenhuma pessoa parecida com eles. Mas o filme usa esse sentimento e entrega um tratamento muito superficial das questões identitária e racial.

O longa tem, inegavelmente, alguns bons momentos – a forma como usa o componente central do mito de Narciso dentro da história resulta numa cena tocante – e os atores são eficientes. Mas o filme termina dando a impressão de que poderia ter rendido mais, que Jefferson De e seus colaboradores tratam o tema com uma leveza excessiva e um clima de fábula cuja resolução é previsível, e já vimos igual em vários outros filmes. Narciso tem boas ideias e um tema inegavelmente importante, mas essas características se perdem em meio ao lirismo, um sentimento lúdico ao qual o filme não faz jus.