Ao longo de sua trajetória, o cineasta Jeferson De construiu uma filmografia marcada pela oralidade e pelo retrato urbano. Em Narciso, no entanto, o diretor se permite um movimento distinto: mais introspectivo, contemplativo e profundamente autoral.

Partindo de um curta realizado no início dos anos 2000, o longa ressignifica o mito grego a partir da experiência de um menino negro que não se reconhece no próprio reflexo — uma inversão potente que dialoga diretamente com questões de pertencimento e representação.

Em entrevista ao Cine Set, Jeferson De comenta o processo de construção do filme, a escolha pelo fantástico como linguagem e o uso do silêncio como elemento central da narrativa.

Da origem do projeto à releitura do mito

Pergunta – Primeiramente, Jeferson, eu queria perguntar sobre a concepção do processo do filme Narciso. Eu sei que você já teve um curta anteriormente, chamado Narciso Rap (2004). Gostaria de saber como foi esse processo de escrita e quais elementos deram origem à idealização do longa-metragem.

Jeferson De – Como você bem lembrou, já existia um curta-metragem realizado há cerca de 20 anos, no início da minha carreira, quando eu estava saindo da faculdade. Esse curta foi muito importante, passou no Festival de Curtas de São Paulo e ganhou o prêmio do público.

Ao longo dos anos, muitas pessoas que assistiram comentavam que ali existia uma possibilidade de longa-metragem. Essa ideia ficou guardada até que minha produtora, Cristiane Arenas, minha sócia na Buda Filmes, sugeriu que era um bom momento para falar sobre infância negra.

Eu já tinha dirigido três temporadas de Escola de Gênios, e foi aí que começamos a trabalhar nesse universo. O que sempre me fascinou nessa ideia do Narciso era a possibilidade de subverter o mito grego. No mito original, Narciso se encanta pela própria imagem, pela sua beleza. No nosso filme, a gente parte do oposto: um menino negro, órfão e pobre que, ao se olhar no espelho, não gosta do que vê. Isso acontece porque o padrão de beleza ainda é eurocêntrico.

Para muitas crianças negras, especialmente hoje diante das telas, esse ideal de beleza não aparece como algo possível. Então a jornada do personagem começa nesse lugar de rejeição. É um filme que fala sobre felicidade, tem um final feliz e não trabalha com violência física. Mas aborda esse sentimento de rejeição, que é muito doloroso — sobretudo para crianças negras que ainda não têm ferramentas para lidar com isso.

O fantástico como caminho para a subjetividade

Cine Set – Eu percebi que o filme tem uma forte conexão com o fantástico, uma natureza mais onírica. Como surgiu a ideia de usar esses elementos e de que forma eles ajudam a abordar a infância negra, talvez de um modo que o realismo mais direto não alcançaria?

Jeferson De – O uso do fantástico me ajudou muito. Busquei referências tanto na mitologia quanto nas religiosidades afro-brasileiras.

Existe um personagem interpretado pelo Seu Jorge que pode ser identificado como um “gênio”, mas que também se relaciona com entidades como o Oxóssi, com sua simbologia. Isso ajudou a construir esse universo. Durante o processo de escrita, junto com a Cristiane Arenas, o fato de trabalhar com o universo infantil e juvenil me permitiu explorar esse caminho do fantástico, entrar na cabeça do personagem.

Também trabalhamos com uma proposta visual específica, inclusive com escolhas como o preto e branco, em diálogo com a direção de fotografia. Esse universo fantástico me ajudava a falar com o público de forma mais ampla, porque o filme não é apenas para crianças — ele trata de temas como pertencimento, preconceito e racismo de maneira mais profunda. Além disso, há um diálogo com o imaginário do Peter Pan, especialmente na construção do personagem Joaquim, um homem adulto com um comportamento infantilizado.

Um filme sobre silêncio, tempo e experiência

Cine Set – Sobre o longa-metragem e essa nova oportunidade, considerando a influência do seu curta Narciso Rap, o que você acha que conseguiu trazer de novo dessa vez? E o que foi mais importante para você mostrar sobre a subjetividade de um menino negro, para além de leituras sociais mais diretas?

Jeferson De – Esse é, com certeza, o meu filme mais pessoal, mais biográfico e mais autoral. Eu nunca tinha feito uma obra tão pessoal. E uma das coisas que eu mais utilizei, pela primeira vez dessa forma, foi o silêncio.

Meus filmes anteriores são muito mais falados, com muita oralidade. Já o Narciso também é um filme urbano, mas eu fiz um uso muito forte do silêncio. Talvez seja o meu filme mais silencioso, com planos longos de até três minutos — algo que eu nunca tinha feito. Também é o primeiro filme em que a minha produtora assina sozinha, o que me deu mais liberdade para aprofundar minha autoralidade e explorar caminhos que eu ainda não tinha desenvolvido dessa forma.

Foi um filme pensado para a sala de cinema, para essa experiência coletiva. Trabalhamos com uma fotografia muito elaborada, feita pela Lílis Soares, buscando valorizar essa experiência. Eu quis tomar o tempo necessário para contar essa história da maneira que eu acreditava e também propor um desafio ao espectador, porque hoje o silêncio é algo raro.

Vivemos cercados por estímulos o tempo todo, disputando atenção. O cinema, especialmente na sala, ainda permite esse mergulho. Então eu tentei utilizar essas ferramentas — o silêncio, o tempo e a imagem — para criar uma experiência mais imersiva e provocadora.