Em tempos em que guerras ainda permanecem com nações colidindo-se em disputas territoriais, Nuremberg surge como uma tentativa de emplacar uma obra relevante que assuma um interesse histórico e converse com o período espinhoso em que vivemos. Mesmo com certo empenho, a produção se revela um tanto pragmática em suas escolhas narrativas e visuais na intenção de exercer um direcionamento nada sutil de certas posições, sem contar o lugar enviesado que esta mesmo se coloca.
Ao tratar de um tema tão forte e extenso como o Julgamento de Nuremberg, o filme por si já estabelece uma promoção de imagem, afinal, reconstituir a famosa corte dos Aliados a analisar os crimes de guerra por líderes nazistas na Segunda Guerra, é motivo o bastante para se ganhar atenção. Logo, ao decidir seguir por essa trilha, a obra também se insere em um cenário onde não basta apenas falar sobre guerras e seus ecos de medo e destruição, se faz indispensável retratar todas as minúcias ali encaradas – e as que evitamos olhar – , pois o cinema ergue-se de prismas como esse, de não abraçar contornos fáceis, e refletir sobre tais conflitos é o ponto de partida e o adiante que podemos exercer.
Dessa forma, a figura do psiquiatra Douglas Keller (Rami Malek) a examinar e buscar compreender todos aqueles homens presos pode fugir até um pouco da proposta de drama de tribunal a qual Nuremberg deseja conceber, no entanto, vejo potencial nas linhas mentais que a narrativa tende a percorrer quando o rapaz cruza com a presença de Hermann Göring (Russell Crowe) ao ponto de se gerar ali uma dinâmica surpreendente e sinuosa entre ambos. Um jogo cerebral se levanta entre os dois, onde se vale respeito e intencionalidade quase a brotar uma pequena amizade desse curioso encontro, mas logo isso se dissipa ao ser desvendada a natureza irreversível de Goring para Keller.
Dada a perspectiva de Keller a ser o protagonista, o longa opta em seguir por um caminho dualista de encaixar o profissional americano como o indivíduo benevolente, ou seja, aquela máxima de obedecer a regra do estadunidense como sujeito capacitado que está ali para cumprir ordens de outros. É uma tônica extremamente presente em Hollywood e que dificilmente é abandonada, e em filmes de guerra sempre se perpetua pelo senso patriota que costumam embutir a fim de criar uma relação com personagens principais. O longa, por exemplo, insinua como o psiquiatra é um rapaz sonhador e muito profissional, que está ali para servir ao seu país e é convocado para ajudar como tal; não há natureza complexa de imediato. Posto isso, quando Nuremberg embarca mais para um lado de interações do personagem de Malek para com os líderes nazistas, margens interessantes se abrem. Quer dizer, do outro lado estão seres que cometeram atrocidades e foram coniventes com inúmeros atos desumanos que o mundo jamais viu, e, para tanto, já seria fácil comprar a ideia maniqueísta inevitável, porém, é preciso ser mais que óbvio para espelhar ações ou traçar um perfil mais profundo do acontecimento e de seus envolvidos.
Nessa ótica de compreensão, a Segunda Guerra Mundial talvez seja o maior assombro que a humanidade já vira, seus conflitos não só arrasaram regiões e territórios, mas cravaram marcas abissais em nações, devastando povos e ordens, e evidenciaram como o ser humano pode ser cruel e hediondo em nome de uma ideologia. Nisso, em meio a tantas ruínas, uma das maiores, sem dúvidas, é o Holocausto promovido pelo regime nazista, sendo este ponto chave dos Julgamentos de Nuremberg acontecido em 1945-1946 e retratado pelo filme de James Vanderbilt. Os homens ali julgados foram tratados como dignos de julgamento não por merecerem algum tipo de benefício de perdão ou anistia, mas pelo teor de entendimento de como os réus daquele tribunal precisavam ser levados à Justiça, e a responsabilização destes seria uma grande resposta, bem como triturar qualquer força que o nazismo ainda continha.
Sob esse contexto, o filme Nuremberg se carrega de nos incluir dentro dessa conjuntura histórica, pois ilustra o senso de aparente incerteza que permeava o mundo. No sentido dos Aliados, a presença de representantes e pessoas cujos interesses pela sentença imediata dos nazistas aponta lados especiais, como os que ficaram a cargo de seguir em frente com o julgamento da cúpula alemã onde nos leva até a figura de Robert H. Jackson (Michael Shannon), promotor-chefe do caso que tem a tarefa de cumprir com a condenação dos envolvidos, além de David Maxwell Fyfe (Richard E. Grandt), promotor britânico que também auxilia no processo. As cenas de ambos contrastam com as cenas na prisão de Nuremberg envolvendo Douglas Keller e os nazistas e servem para condicionar e esclarecer os trâmites políticos para que as cortes acontecessem.
Outro personagem da qual a trama dá uma atenção importante é Howard Triest (Leo Wondall), rapaz que surge como tradutor e intérprete alemão a auxiliar Keller na interação com os oficiais nazistas, e tão pequeno espaço se revela, ao final do filme, uma janela de olhar principalmente ao personagem de Rami Malek que se encontra confuso. As escolhas do filme para uma sequência que envolve um diálogo entre os personagens da qual se usa o assunto Holocausto e Segunda Guerra se mostram eficientes na jornada de Nuremberg, mas não evitar de cair em doses melodramáticas e de forte cunho apelativo.
As cenas do Tribunal de Nuremberg, por outro lado, são ótimos momentos; Vanderbilt não busca inventar demais ou fazer firulas visuais, deixando o melhor para seus atores principais. Existe um jogo mordaz na troca entre os personagens de Shannon e Crowe, a qual o lado manipulador e perspicaz de Göring é nítido e voraz, onde nem mesmo a eloquência e segurança do promotor americano são páreos para a força e confiança do oficial nazista. Fica muito evidente como o “drama de tribunal” tão aclamado é a melhor coisa da produção, algo muito curioso já que o filme em seus 150 minutos de duração, permite tão pouco tempo para a condução desses momentos, deixando, por exemplo, mais para as cenas da prisão e do tratamento de relação entre Keller-Goring.
Diante disso, a cartada final de Nuremberg chega com a exibição no tribunal das cenas do Holocausto nos campos de concentração nazistas, em que pese, são cenas reveladoras e absurdas sobre o horror que pairava dentro daqueles lugares. Pilhas e pilhas de corpos e pessoas em situação de miséria humana são mostradas pelo filme sem medo algum de pesar a mão ou ser mensageiro do caos. Afinal, aquilo foi essencial para o andamento do processo do julgamento, e nos imerge pensar sobre como chegamos como humanidade a ser tão cruel uns com os outros.
A justificar, a dor e a denúncia que Nuremberg passa ao exibir tais cenas, o não-esquecimento de uma barbárie triste e dolorosa que precisamos revisitar na consciência de que tanto não se repita. Agora penso: se não queremos ser espelho das monstruosidades já vividas, por que ser tão permissivos e indiferentes com os conflitos atuais? Temos guerras e conflitos neste momento acontecendo, e o mundo levado a banalizar já que não faz parte da realidade de cada um. Os campos de concentração modernos são terras isoladas de povos que só querem um território para chamar de seu, e são massacrados. Portanto, a reflexão imediata de pessoas ditas aliadas ou que estavam envolvidas, sendo parte de uma destruição atual, é desoladora e mostra como ainda regredimos vez após vez mesmo depois de tanta dor.
Nessa circunstância, Nuremberg é um retrato promissor sobre um dos maiores momentos da história, mas sem as devidas possibilidades totalmente traçadas. Ficam registros de bons momentos e atuações interessantes apenas e o testemunho de que falar sobre guerra no cinema merece mais que a superfície.














