Gosto do nome desse episódio – ‘O Dia Seguinte’ – porque ele literalmente resume como Ira Parker o torna um epílogo de “O Cavaleiro dos Sete Reinos”, principalmente quando coloca em cheque a reflexão entre os personagens e o público sobre como seguir em frente quando o maior descendente de Aegon, o Conquistador faleceu em circunstâncias pouco esperadas. Confesso a vocês que, se houvesse uma comunidade no Orkut chamada “as viúvas de Baelor (Bertie Carvell)” ou algo parecido, eu estaria marcando presença. Apesar do clima leve que acompanhou toda a trama até aqui, segue no ar um gosto agridoce que está diretamente relacionado a como o “Em nome da Mãe” termina. Estamos todos de luto, não há como negar.
Por outro lado, deixei passar que o episódio anterior era o penúltimo de uma temporada do universo das Crônicas de Gelo e Fogo e Parker quis seguir o mesmo ritmo imposto pelos D&D em 2011, quando nos chocamos com a morte de Ned Stark. “Em nome da mãe” traz o momento mais intenso e forte da temporada, cabendo a “O dia seguinte” o papel de encerrar a série deixando a sensação de que algo bom ainda pode vir por ai. Para isso, encerra todos os arcos que acompanhamos desde o primeiro episódio, mas planta as sementes de uma futura guerra.
Nestas conclusões, o núcleo que mais se destaca é o dos Targaryen, todos atravessados pela presença de Sir Duncan, o Alto (Peter Claffey). De um lado, chama atenção as diversas compreensões sobre a partida de Baelor e no cerne de tudo isso a grande indagação que Dunk e Valarr (Oscar Morgan) se fazem: “por que os deuses deixaram o cavaleiro andante e levaram o herdeiro do Trono de Ferro?” As respostas dizem muito sobre a percepção de monarquia e como a coroa, muitas vezes, pesa mais do que o indivíduo.
Lyonel Baratheon (Daniel Ings), por exemplo, afirma que “um bom dragão é um dragão morto”. Sua perspectiva sobre como o julgamento de sete foi uma grande farsa para o falecido é curiosa porque ao mesmo tempo em que faz total sentido, mostra também a banalidade de pertencer a coroa e como os nobres compreendem isso, mas os próprios continuam usufruindo do que toda essa conveniência tem a lhes oferecer. O que pessoalmente só me atesta o quanto esse regime de governo é tão ruim quanto a dependência que temos do capitalismo. Prova disso é como Dunk se sente culpado pelo resultado mortal do seu julgamento, sentindo-se inferior aos nobres que lhe deram a vida, afinal, “como um pé vale mais do que a vida de um príncipe?”
Outro viés interessante é o que Valarr e Maekar (Sam Spruell) trazem. Ambos familiares muito queridos de Baelor e que compartilham uma dor semelhante. Você já deve ter ouvido um pai que precisa sepultar o filho dizer o quão anti-natural é isso, o agora herdeiro do trono de ferro parte de uma reflexão semelhante quando diz que já viu muitos filhos morrerem com a armadura de seus pais, mas dificilmente o inverso acontece, o que é o seu caso. Há responsabilidade, raiva, dor e culpa nas palavras do jovem príncipe.
Quanto a Maekar, o segundo bloco do episódio dá destaque a ele e a sua família nuclear. Observem as expressões faciais de sofrimento que o príncipe de Solarestival detém durante o enterro do irmão mais velho, além disso sua única companhia é Egg (Dexter Sol Ansell), apesar de Daeron (Henry Ashton) não estar tão mal quanto Aerion (Finn Bennett). Volto a dizer que a caracterização de Sam Spruell é muito semelhante aquilo que lemos no Mundo de Gelo e Fogo. Ele consegue passar os principais elementos que compõe a sua personalidade: a disciplina, o orgulho, a rigidez e o amargor; a partida do irmão e sua contribuição para esta parecem aflorar ainda mais isso. Spruell brilha nesse processo.
O confronto entre o personagem e Dunk é curioso, porque parece haver uma inversão de papéis e Maekar não sabe lidar bem com isso por seu orgulho Targaryen e Dunk, como vimos ao longo da temporada, busca sempre se esconder, apesar de, nesse caso, ser firme em suas decisões. Fica nítido, no entanto, o amor que o príncipe de Solarestival tem pelos seus filhos — como isso também está diretamente relacionado ao que os reserva no futuro — e como o cavaleiro andante quer estar longe de todo drama que os envolve. Gosto muito, porém, de como Dunk tem muito respeito por Valarr, mas não suporta Daeron e Aerion e os trata como se não fossem príncipes reais. Esse comportamento é importante, por exemplo, para o momento em que encontra o colírio Daeron na taverna e o afronta, tendo logo depois um insight sobre o próprio futuro de Egg.
Essa é mais uma conversa curta e profunda que Dunk tem com um Targaryen nesse episódio. Daeron fala dos irmãos com um amor fraternal, o qual, honestamente, não vejo muito no universo das Crônicas. O diálogo é decisivo para o futuro da nossa dupla favorita de cavaleiro e escudeiro — aproveito para abrir um parêntesis porque agora tivemos a certeza que Dunk nunca foi armado cavaleiro e tudo o que sabe é graças a escola da vida — e para o escudeiro de Sir Arllan ter mais um argumento contra Maekar, já que é todo o privilégio e proteção de um nome e uma casa real que tornaram seus filhos mais velhos um bêbado e um perverso. Mas Egg é seu bebê e quando ele fala isso há uma dor que me leva a refletir se ele percebe o quanto falhou com os outros, mas que há uma chance com o garoto careca indisciplinado. Essa chance é vê-lo passar dificuldade entre o povo comum para moldar o seu caráter? O príncipe não concorda com isso, mas o que ele pode fazer diante de um irmão capaz de atentar contra a vida do outro? Incesto não incomoda os Targaryen, mas fratricídio segue sendo um assunto delicado entre eles, pelo menos isso.
Sarah Adina Smith, que dirigiu outros episódios dessa temporada, mais uma vez acerta na dinâmica das cenas, na relação visual entre os personagens e no conjunto completo que evidencia como o protagonista de O Cavaleiro dos Sete Reinos amadureceu durante o torneio de Vaufreixo, mas também continua sendo aquele cara de bom coração que nos fez arrancar boas risadas com sua ignorância. O que torna tudo mais interessante é como a trilha e o campo no final parecem uma outra saga que está lá e de volta outra vez.
O Cavaleiro dos Sete Reinos encerra de modo redondo e deixando um gostinho de que pode existir histórias desse universo sem dragão, sem grandes casas brigando pelo poder entre si e que o povo comum tem muito a contar, basta um bom contador de histórias para tirar do papel o que fora imaginado por Martin e isso Ira Parker deu conta.















