Voltamos a Westeros para acompanhar dessa vez o povo comum tendo como ponto  de referência um cavaleiro andante e seu escudeiro. Inspirado nos contos de cavalaria de George R R Martin, “O Cavaleiro dos Sete Reinos” acompanha as primeiras interações entre Dunk e Egg durante o torneiro de Vaufreixo; a série é a terceira adaptação da obra do escritor de ficção norte-americano e conta com Ira Parker, que também esteve na equipe de produção de “A Casa do Dragão”, como showrunner das aventuras de Dunk e Egg. 

O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa com o produtor e o elenco principal, na qual pudemos conversar sobre as perspectivas para essa nova imersão nos Sete Reinos, a preparação do elenco e como “O Cavaleiro dos Sete Reinos” se diferencia de tudo aquilo que foi produzido antes inspirado na escrita martiniana — especialmente pelo seu tom cômico. 

Cine Set – Estamos de volta a Westeros, mas desta vez pela perspectiva das pessoas comuns. Que elementos vocês buscaram incluir que nos lembrassem da série anterior e quais ajudariam a manter a personalidade única deste projeto?

Ira Parker – Espero que seja um excelente ponto de entrada para pessoas que não acompanharam Game of Thrones na primeira ou na segunda vez, por qualquer motivo. Em parte, porque somos bastante simples e diretos na nossa abordagem. Temos um personagem de ponto de vista principal, Sor Duncan, o Alto, e Egg ganha alguns momentos ao longo da história. Mas, na maior parte do tempo, estamos contando uma única história. Isso permite que o público tenha um pouco mais de clareza sobre o que estamos acompanhando.

E Dunk é simplesmente um ser humano imediatamente cativante. Ele é sincero, honesto e carrega muitas dúvidas e ansiedades, que espero que as pessoas reconheçam em suas próprias jornadas e em suas próprias vidas. Ele é apenas um garoto com um sonho meio bobo, que quer sair pelo mundo e se tornar um cavaleiro, mas não sabe exatamente como alcançar isso. Talvez ele ainda não tenha as habilidades necessárias. Ele sabe o quão assustador isso vai ser, o quão difícil é o caminho à frente, e eu sei que a minha própria jornada na vida certamente se reflete nisso.É alguém que não recebeu tudo de mão beijada, que pode falhar e simplesmente não dar certo em seu futuro. Não há nada em que se apoiar como plano B. Acho que isso, com sorte, vai atrair atenção suficiente no começo. E então começamos a nos divertir um pouco em Westeros e a retornar ao antigo Game of Thrones, como George R. R. Martin sempre gosta de fazer tão bem: essa brutalidade que esbarra diretamente na nossa felicidade e esperança.

Pergunta – Sendo os primeiros a levar Dunk e Egg para o live-action, quais eram as dinâmicas mais vitais ou sagradas — as dinâmicas de relacionamento entre os dois — que você considerou mais importantes e que precisavam ser mantidas do livro?

Ira Parker – Os elementos mais importantes a manter foram — quando eles se conhecem pela primeira vez — o fato de que esses dois personagens são, na verdade, bastante solitários. E não tenho certeza se ambos reconhecem isso completamente dessa forma.

Obviamente, Dunk acabou de perder seu mentor de longa data e praticamente a única pessoa no mundo inteiro que sequer sabia que ele existia. E encontramos Egg em um tipo diferente de solidão, sozinho. Ele foi um pouco abandonado, está meio sem rumo. E os dois acabam se encontrando, e não sei se eles percebem isso um no outro, mas há algo inconsciente no motivo pelo qual eles se procuram.

Na verdade, toda essa história é sobre família e sobre as diferentes maneiras pelas quais as famílias são formadas. Essa relação é, em sua essência, a de um cavaleiro e um escudeiro, mas também é a de mentor e aprendiz, mestre e discípulo. Porém, há também, sabe, uma relação de pai e filho. Acho que Sor Arlen foi muito como uma figura paterna para Dunk, embora fosse uma relação complicada. E agora Dunk é muito protetor com Egg.

Eles também são como irmãos, sabe? Eles realmente têm uma relação complexa. E acho que tudo isso vem do fato de Dunk não ter família nenhuma desde o início, por ser um órfão em Flea Bottom, e essa acabou sendo a jornada de toda a sua vida: buscar esse tipo de vínculo. E Egg, de uma forma que não entrega spoilers, também teve relações complicadas com sua família e está em busca dessa conexão que nunca lhe foi dada — algo que muitos de nós temos a sorte de encontrar em nossos lares.

Pergunta – Sor Duncan, o Alto, parece um gigante gentil e, ao mesmo tempo, um herói atípico. Então, como você encontrou o personagem dentro de si, além da altura — que obviamente foi um requisito principal para o elenco, imagino?

Peter Claffey (Sir Duncan) – O Dunk é alguém que, sabe, se fixa muito nas coisas, se preocupa demais e tem alguns problemas sérios de ansiedade — e eu tenho bastante experiência com esse tipo de coisa. Quando consegui o papel e fui me encontrar com o Owen (diretor) e o Ira, eu fiquei fisicamente mal de tanta antecipação e nervosismo. Então, acho que o Dunk e eu definitivamente temos isso em comum.

Mas eu realmente admiro o senso moral dele e a visão bem preto-no-branco que ele tem da cavalaria. Sinto que aprendi muito com o próprio personagem. E acho que, em um mundo tão implacável quanto Westeros, tão cruel quanto ele pode ser — onde existe muita traição, muita facada pelas costas — é algo bastante bonito e cativante ver um personagem como o Dunk, que tenta navegar tudo isso de uma forma moral, com bons princípios e valores.

Pergunta – Vocês entraram nisso esperando sangue e violência — o que, bem, temos isso — e acabaram se surpreendendo com os momentos mais tranquilos, os momentos engraçados, o humor mais áspero, podemos dizer também? Ah, vocês já sabiam disso? Todos vocês já estavam muito preparados, conheciam a história e sabiam o que ia acontecer?

Bertie Carvel (Baelor Targaryen) – Hoje em dia é realmente incomum, na televisão, ver todos os roteiros de uma vez. E, se alguém que faz televisão estiver assistindo ou ouvindo isso, saiba que é uma coisa insana. Faz uma enorme diferença quando, como neste projeto, você pode ler a obra do começo ao fim e saber de que está fazendo parte, porque todos nós somos pequenos organismos de contação de histórias, e as coisas sempre são maiores que a soma de suas partes (a menos que sejam ruins). E a razão de serem boas geralmente é que todos trazem toda a sua criatividade para a mesa.

Então, ter essas histórias muito bem estruturadas e roteiros lindamente feitos — que, claro, continuam sendo trabalhados e alterados todos os dias — realmente ajuda, eu acho, e ajuda a saber de que você está fazendo parte. Dito isso, eu não sabia o quão encantador e engraçado seria até assistir. Como ator em um filme, não é como no teatro, onde você é o último par de mãos por onde as coisas passam antes de chegar ao público. No cinema, você é apenas uma parte de uma equipe enorme e só descobre realmente do que faz parte quando vê o resultado.

Então, foi maravilhoso sentar e assistir e perceber o quão encantador é, e acho que isso se deve à química, na verdade, aos deuses da realização cinematográfica e ao bom julgamento. Acho que é uma obra lindamente feita.

Pergunta – Game of Thrones tem a política, a narrativa épica. Já O Cavaleiro dos Sete Reinos parece muito mais íntimo e é realmente a história de duas pessoas crescendo juntas. Então, como vocês adaptaram essa linguagem não apenas a escrita, mas também a parte visual, entre aquele Westeros épico, que todos estamos acostumados a ver e lembrar, e este mais íntimo?”

Ira Parker – Como tudo neste programa, tudo volta ao Dunk e ao seu ponto de vista, e não temos aquela escala épica de ir de família em família, com os mortos vindo para matar a humanidade e dragões. Temos um cara, alguns cavalos e algumas árvores bonitas, e era muito importante para nós passar uma sensação de ligação com a terra. E a sensação de intimidade veio muito naturalmente porque estamos apenas acompanhando a história de uma pessoa e vendo tudo pelos olhos dele, tentando seguir de forma bastante fiel esse ponto de vista.

Não usamos nenhum plano de drone na série. Não há nada disso, porque não é o ponto de vista do Dunk. Não é que nunca usaríamos algo assim, mas, para nossa linguagem visual, queremos que o público sinta tudo o que Duncan está sentindo naquele momento. Então, quando ele está observando os cavaleiros se enfrentando nas listas, queremos que ele sinta medo. Queremos ver esses cavaleiros o mais impressionantes possível. Quando Dunk está deitado na lama, queremos sentir a sujeira sob suas unhas. Quando ele está dentro do capacete, queremos sentir o peso da sua respiração, o quanto seu coração está batendo forte. Esses não são momentos confortáveis.

Quando ele conversa com Tanselle no mercado, queremos sentir toda a sua estranheza. Mas só é possível fazer tanto com a linguagem visual, se não fosse pelo Sr. Peter Claffey, que chegava todos os dias e comunicava tanto com sua linguagem corporal, seus olhos e seu próprio senso de humor, nunca teríamos conseguido transmitir o monólogo interno do Dunk, que é, claro, tão importante para esta série. É extremamente importante para esta novela.

Pergunta – Ouvimos uma trilha sonora que todos conhecemos muito bem, mas então houve uma escolha muito forte, uma escolha visual, de fazer um corte brusco do tema de abertura de Game of Thrones para alguém realizando suas necessidades fisiológicas. Então, o que está por trás disso?”

Ira Parker – Novamente, tudo volta ao personagem. Nesse momento, Dunk está em uma encruzilhada, levantando a espada de seu mestre e ouve aquele chamado à grandeza. Ele ouve o tema do herói em sua cabeça e o roteiro original dizia literalmente ‘Dunk ouve o tema do herói’. Mas, ao longo da produção e da pós-produção, quando Dan Romer estava compondo o tema do herói do Dunk, novamente, era um reflexo do próprio Dunk. Então, o tema foi simplificado, ficou mais enxuto. Não era aquela grande trilha orquestral maravilhosa e heroica.

E, nesse momento, não parecia exatamente certo, porque este é um chamado para algo que Dunk quer no futuro. Ele ouve aquele tema porque é o maior chamado heróico que existe, mas, no momento, ele ainda não é um herói. Ele ainda não fez nada, não conquistou nada. E, de repente, quando pensa em quão assustadora a tarefa à sua frente vai ser, isso o deixa nervoso, dá-lhe aquela sensação de ansiedade no estômago — e ele se vê agachado atrás de uma árvore, em uma posição muito pouco heróica, que alguns diriam ser a menos heróica possível. Porque, neste ponto, Dunk ainda não é um herói. Ele tem um sonho, quer fazer algo, mas ainda não descobriu exatamente como alcançar isso.

Pergunta – Os anti-heróis, de fato, parecem dominar a narrativa atual em geral. E, neste caso, estamos falando de um herói, um verdadeiro herói. Então, será que precisamos de heróis no mundo de hoje?

Bertie Carvel – Ao ler essa história e assisti-la como fizemos outro dia, pensei comigo mesmo que ela meio que nos convida a nos perguntar se podemos ser heróis e o que isso significaria para nós, se seria absurdo, arrogante ou ingênuo imaginar que alguém pode realizar feitos heróicos. E acho que vejo isso no personagem do Dunk: ele, claro, sonha — como todos nós sonhávamos quando crianças — em realizar feitos heróicos. E então você corta para ele se aliviando atrás de uma árvore e ele é lembrado de sua humanidade, sua mortalidade, suas limitações, e assim por diante.

Ele olha ao redor e vê cavaleiros que parecem mais capazes e grandiosos; o que torna essa história identificável. Como uma história heróica, ela está fundamentada em algo bastante humano e mortal. E sim, acho que seria bom se todos nós nos perguntássemos o que significaria sermos mais heróicos. E acredito que, o tempo todo, as pessoas fazem coisas — coisas comuns — que são profundamente heróicas, na verdade. E o heroísmo mais verdadeiro que você vai ver está, na verdade, nas vidas comuns; não precisa ser algo grandioso. E a soma dessas ações pode fazer com que o mundo ainda exista em 2027.