Curta paraense dirigido por Vinicius Colares, “O Hóspede” é um eficiente e interessante exercício de suspense. Conta a história de uma mulher se recuperando de um problema físico, que aceita como hóspede em sua casa um rapaz imigrante. A convivência tranquila entre os dois aos poucos vai se modificando, quando ele começa a parar de tomar seus remédios controlados e passa a agir estranhamente.
Filmado inteiramente dentro do cenário da casa, O Hóspede constrói um eficaz clima de tensão e claustrofobia: o set parece abafado e tenso, com cortinas sempre fechadas, e os dois atores – Monique Monteiro e Marc Bell – estão bem em cena. Há planos que causam estranheza proposital – algum filmados com split-diopter, opondo os personagens em lados opostos do quadro – e alguns closes extremos também são usados, um deles funcionando quase como um jumpscare para tentar assustar o espectador.
O roteiro e a encenação também funcionam em conjunto para retratar a progressão da situação: mesmo com a pouca duração, é possível sentir a piora do homem e o aumento da paranoia da mulher, e ambas parecem críveis.
Sem querer dar spoilers, a história inclui um detalhe no início que parece indicar um elemento sobrenatural na trama. Porém, isso acaba ganhando novo interesse quando “O Hóspede” chega ao seu desfecho. Quanto a isso, aliás, tudo culmina num final bizarro com potencial para dividir o público: particularmente, achei uma daquelas surpresas divertidas que curtas muitas vezes aprontam com seus espectadores.
Há um subtexto racial aí que o curta, infelizmente, não chega a aproveitar de fato – afinal, é uma história de uma mulher branca ficando paranoica com um negro em sua casa, e imigrante ainda por cima. Nos nossos tempos de violência contra a mulher e racismo e xenofobia exacerbados, uma situação como a do filme rende muito pano para manga na questão de subtextos e o filme poderia lançar boas provocações sobre o público envolvendo essas temáticas. Há até uns indícios no filme de que os cineastas se preocuparam com essa questão, porém, talvez pela própria limitação de tempo, eles não conseguiram explorá-las.
Mesmo assim, O Hóspede é um bom trabalho cujos realizadores demonstram compreender o processo de criação de tensão numa narrativa. E isso, claro, é o mais importante num suspense.












