“Para quebrar um quebranto, é preciso lançar um quebrante”.

Essa fala pontualmente presente em “Quebrante” sintetiza o que Janaína Wagner transpõe no curta-metragem, que bebe da ficção e do documental para construir uma narrativa que nos faz atravessar por vários caminhos geológicos e filosóficos para chegarmos a uma concretude sobre a existência. 

“Quebrante” se passa em Rurópolis, município no interior do Pará, considerado a primeira cidade construída na rodovia Transamazônica. Logo, sua existência e as manifestações “sobrenaturais” que rondam a localidade estão diretamente associadas a como a estrada impactou toda a ecologia presente neste território e Wagner utiliza a pedra como uma alegoria para nos trazer esse entendimento e aprofundá-lo. 

Vale salientar que Rurópolis é também a cidade com mais cavernas desconhecidas no país. Tal fato apresentado no intermezzo da produção nos leva a compreender porquê a lua ocupa o foco central nos primeiros momentos do filme. Mais do que isso, contudo, evidencia como o projeto de ocupação da Amazônia através da ligação via estrada mostrou-se não apenas ineficaz, mas também uma agressão em vários níveis ao sistema ecológico de onde passou. 

Wagner utiliza a geologia como superfície para questões filosóficas. Embora cutuque a Transamazônica enquanto projeto político, sua maior preocupação está em deslocar essas colocações para apontamentos existentes, daí a origem da lua e sua ligação morfológica com o centro da terra serem pontos tão constantes dentro de “Quebrante”. Em dado momento do filme, nos é dito que a rodovia separou pedras e uma delas foi para o céu enquanto a outra para dentro da terra. A amplitude dessa afirmativa ganha fôlego e novos contornos quando se observa imageticamente que as pedras deslocadas tornaram-se meteoros, estrelas, mas também estradas e casas.

Dessa forma, a diretora utiliza um objeto concreto que pode ser pequeno ou grande, mas sempre em estado bruto, capaz de originar estruturas magnânimas, sólidas e gigantes, para nos dar um vislumbre de como a nossa existência, por mais efêmera que seja, também é um ponto importante dentro do universo. Como tal, a separação entre a pedra que foi para o céu e a que ficou no centro da terra, rememoram a herança cultural mais forte deixada pelos portugueses: a saudade. 

Se a lua é a parte que nos falta, é nela que concentra-se nossa ideia de saudade, uma perda que não pode ser recuperada. Infelizmente, grande parte da nossa existência se pauta naquilo que deixamos para trás e sentimos falta, ainda que não saibamos explicar porque elas nos tocam tanto. Nesse sentido, enquanto argumento filosófico, “Quebrante” traz uma mensagem interessante, é uma pena que visualmente as coisas não consigam se encaixar de forma a atingir algum grau de catarse, embora as imagens e os enquadramentos escolhidos sejam belíssimos. 

Esse é um filme que encontra na concretude bruta uma maneira de discutir a existência, o que nos forma e ainda como a política afeta gradualmente nossa percepção de vida. Afinal, as coisas não existem para serem vistas, mas simplesmente porque existem.

Autor

  • Pâmela Eurídice

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (2018), integrante do Coletivo Elviras de Mulheres na Crítica Cinematográfica. Participou de duas edições do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (2018 e 2020), escreve para o Cine Set e produz conteúdo para internet.

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