Em As Aventuras de uma Francesa na Coreia, Isabelle Huppert é uma professora de francês em Seul. Seu método de ensino é, no mínimo, pouco convencional. Consiste em travar diálogos íntimos com seus alunos e anotar, em um bloco de notas, a tradução em francês das confissões. Ela passeia, assim, alegremente pela capital coreana, entrando e saindo da vida alheia.

Seria ela algum tipo de predadora emocional? Fofoqueira benigna? Ou simplesmente uma professora bem-intencionada? O sorriso de esfinge de Huppert é parte do ponto. As Aventuras de uma Francesa na Coreia, no fim das contas, é uma grande interrogação sobre a figura da estrela francesa.

As parcerias entre Huppert e Hong Sang-soo sempre exploram as dissonâncias. Isso porque a francesa tem um quê de forasteira em meio aos rostos e situações que já nos são familiares no universo particular do cineasta coreano. Em um filme como A Visitante Francesa, de 2012, a presença de Huppert é uma curiosidade — tanto para o espectador quanto para os personagens. Mas, já no filme seguinte da dupla, A Câmera de Claire, de 2017, o alheamento se torna parte do mote.

Ali, Sang-soo transpunha seu cinema para a Riviera Francesa, e o filme ganhava uma nova textura — fosse pelos letreiros dos cafés, fosse pelas feições europeias dos transeuntes — que acentuava o jogo dramático dos desencontros em primeiro plano. Já em As Aventuras de uma Francesa na Coreia, essa relação se inverte: é Huppert quem é transplantada para Seul. Talvez por isso o filme se desenrole como uma investigação em torno de sua presença solar.

Na maior parte do tempo, o diretor pinta esse retrato com as mesmas pinceladas de sempre: diálogos semi-improvisados, longos planos conjuntos à mesa de refeições, encontros e desencontros. Mas há um plano próximo ao fim de As Aventuras de uma Francesa na Coreia — um close-up do rosto de Huppert preenchendo o quadro horizontalmente — que salta aos olhos em meio ao arsenal tradicional do diretor. O plano não nos responde nada. Pelo contrário: apenas exacerba a incógnita. É o tipo de imagem com a capacidade de permanecer na memória muito tempo após o fim da projeção.