Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso, Scott Pilgrim Contra o Mundo, Em Ritmo de Fuga… Vasta galeria de filmes interessantes, né? O que há de comum entre eles é um elemento: Edgar Wright. A filmografia do cineasta britânico contém doses magnéticas de identidade muito por conta do olhar único e afiado a tornar seus filmes irresistíveis de acompanhar. Assim, quando em contato com O Sobrevivente, novo trabalho do diretor, e as diversas situações encontradas no filme, uma estranheza me fora acometida.
Baseado na obra de Stephen King já adaptada para os cinemas com “O Vingador do Futuro” nos anos 1990, O Sobrevivente se passa em um Estados Unidos repleto de dificuldades devido o colapso da economia, onde o território se torna hostil em todos os cantos com um controle massivo do Estado e de uma mídia manipuladora que domina àquela população. O programa de maior audiência desse ambiente é o reality The Running Man, onde um indivíduo precisa sobreviver a uma equipe de assassinos que tenta caçá-lo por 30 dias em troca de bilhões em dinheiro. Nesse cenário, Ben Richards (Glen Powell) aceita participar do jogo para salvar sua família da pobreza, em especial, sua filha que está doente.
A partir dessa premissa, a narrativa discorre sobre um homem desesperado acerca de suas condições que, na intenção de resistir a esse meio corrompido, tenta se nutrir das poucas opções restantes. Mesmo com uma introdução corrida, conseguimos ter acesso aos dilemas sociais de Ben e sua família, onde, por breves instantes, entendemos toda a importância e valor daquelas pessoas para as decisões da sua vida, e aí que entra a questão do desejo imediato de mudança que o leva, pelas tantas, a entrar no programa televisivo.
Tão logo, o filme convida a imergirmos na dinâmica de The Running Man com todas as suas normas e condutas absurdas de propósitos específicos. Nessa direção, somos levados a conhecer o idealizador Dan Killian (Josh Brolin) cuja falsa simpatia oferecida é apenas um desejo de gerar caos e mídia ao seu jogo; a figura do apresentador Bobby Thompson (Colman Domingo) representa o emissor que serve de voz à espetacularização propagada que chega até as massas. O longa faz questão de exibir ações drásticas a quem ousa participar do famigerado programa a servir como causa e consequência, isto é, Killian e sua equipe não medem esforços para manobrar o público com falsas informações, entre vídeos e imagens – criados na tentativa de moldar um desprezo e sensacionalismo contra os participantes.
Dado esse terreno, aqui nos deparamos com um Edgar Wright receoso de seu próprio cinema. Parece confuso, mas vamos lá. Dentro de sua esfera de elementos cinematográficos, há muita verdade e eloquência em sua carreira, pois testemunhamos obras estilosas que pulsam e jorram uma natureza irônica e imprevisível: Há muito sangue e sorvete na Trilogia Cornetto; uma história em quadrinhos viva em ‘Scott Pilgrim’; o som como instrumento inseparável da narrativa de Em Ritmo de Fuga; até mesmo as cores vibrantes de Noite Passada em Soho; aspectos particulares que personalizam a construção artística de um criador. Em O Sobrevivente, Wright serve como apenas guia da sua própria obra, contudo, sem contar esmero.
A base já vista antes está lá, seja na obra de King, seja no filme oitentista conhecido. Assim, se fazia necessário ao diretor dar a sua assinatura ao projeto e sustentar um bom filme de ação. Não haveria dúvidas da capacidade, visto que, é Edgar Wright, competência não falta. Infelizmente, ficam sintomas de um cinema de estúdio a engolir o fator autoral do artesão. Busco acreditar que por ser a segunda adaptação de um produto existente, tirou a liberdade criativa total do cineasta quanto às suas possibilidades. Pequenos acenos a bons momentos de sua filmografia estão ali – principalmente na passagem de Elton Parrakis (Michael Cera, hilário), vide o humor imediato, ação desenfreada e violência inesperada, porém, tudo volta à estrutura padronizada em seguida.
Glen Powell mostra o porquê de sua ascensão como ator em Hollywood segurando muito bem mais um papel de destaque. O seu Ben Richards é amoroso, carinhoso e persistente ao mesmo tempo temperamental, orgulhoso e impiedoso. A presença de Powell eleva a jornada de um homem que sabe o peso de suas ações e precisa lidar em desafio com forças implacáveis a lutar o tempo todo, bem como institucionais, que são os verdadeiros vilões dessa trajetória.
Nessa conduta, a parte final do filme expõe de forma mais agravante os problemas de roteiro, com um desalinho impressionante dos atos anteriores até então concebidos. O Sobrevivente é um filme decepcionante em vários sentidos, vítima da ausência autoral de seu realizador, acaba sendo um monte de remendo de extensas ideias praticadas, com poucas delas, bem orquestradas. Aguardo ansiosamente pela volta do bom e velho Edgar Wright.













