Jennifer Lawrence surgiu no fim dos anos 2000 com potencial para ser a grande estrela do cinema americano nas próximas décadas. Começou com tudo já indicada ao Oscar por “Inverno da Alma” e liderando a franquia “Jogos Vorazes”, uma das mais bem-sucedidas do século. Não demorou muito para ganhar a estatueta dourada com “O Lado Bom da Vida”. A atriz nascida no Kentuchy emendou blockbusters como “X-Men” e obras mirando a temporada de premiações como “Não Olhe Para Cima” e “Passagem”.

Robert Pattinson seguiu caminho semelhante ao virar um símbolo sexual com a série “Crepúsculo”. Após toda a fama e dinheiro conquistado por interpretar o vampiro Edward Cullen, o astro decidiu apostar em obras para conseguir prestígio junto à indústria de Hollywood e, quem sabe, às premiações. Desta forma, se juntou a David Cronenberg (“Mapas para as Estrelas”), James Gray (“Z – A Cidade Perdida”), os irmãos Safdie (“Bom Comportamento”), Claire Denis (“High Life”), Christopher Nolan (“Tenet”), Robert Eggers (“O Farol”) e Bong Joon-Ho (“Mickey 17”). Em 2022, decidiu dar uma nova chance aos blockbusters com “Batman”.

Coube a Lynee Ramsey, diretora dos excelentes “Precisa Falar sobre Kevin” e “Você Nunca Esteve Realmente Aqui”, para reunir Lawrence e Pattinson. Em “Morra, Amor”, a dupla vive um casal indo morar em uma zona rural com o filho recém-nascido. Deixada para cuidar da criança praticamente sozinha, ela se rebela em uma obra que expõe a falta de redes de apoio para mães e a crueldade da maternidade em relação à liberdade paterna. 

O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa com Jennifer Lawrence e Robert Pattinson. Trazemos os melhores momentos da conversa abaixo:

Cine Set – As mães costumam ser colocadas nessa posição sagrada em que se espera que elas se doem completamente aos filhos, até negando a própria sexualidade. A Grace resiste a isso de uma maneira muito pessoal. O que mais chama a sua atenção na luta dela?

Jennifer Lawrence – Acho que o que mais me chamou atenção na luta dela foi a sensação de isolamento, porque, para mim, ter uma comunidade — especialmente uma comunidade de mães — foi algo essencial quando tive meu primeiro filho. Sua vida muda quase da noite para o dia. A vida que você tinha antes de ter uma criança simplesmente… morre, acaba. Você meio que precisa começar de novo do zero.

E eu acho que não teria noção de quão isolada me sentiria se não tivesse mães para conversar — aquelas que conheci no parque, ou amigas que tinham bebês da mesma idade para fazermos encontros. Então eu estava muito consciente disso. Quando a Lynn teve a ideia de mudar o casal para, basicamente, o meio do nada, onde ela não tem comunidade nenhuma, isso realmente me marcou. Aquilo seria a minha ruína.

Pergunta – Quais são seus pensamentos sobre a percepção pública da maternidade em comparação com a paternidade?

Jennifer Lawrence – É algo muito intenso. Há muito a ser dito sobre expectativas culturais. Enquanto as mulheres continuarem enfrentando essa expectativa completamente irreal de serem mães perfeitas, que ficam em casa, e ao mesmo tempo terem uma carreira… para mim, isso é uma forma muito conveniente de garantir que a gente não avance demais no mercado de trabalho. E eu sei que provavelmente não sou a melhor pessoa para perguntar sobre isso, mas, sinceramente, acho que todo o sistema é manipulado.

Pergunta – Como vocês construíram essa química antes e durante as filmagens?

Jennifer Lawrence – Foi muito na base de confiança. E também as aulas de dança que a Lynne fez a gente fazer antes, que foram realmente embaraçosas, mas ajudaram muito. Foi quase como uma terapia de exposição. O Rob é uma ótima… como posso dizer… não estou lembrando a palavra exata, mas ele é uma ótima pessoa para se trabalhar. Realmente confio nele e sentia que não havia um lado obscuro ou misterioso por trás dele. Sempre foi muito direto. Então, quando fazíamos as cenas de briga ou de sexo ou qualquer coisa mais intensa, eu sentia que podia simplesmente lidar com o Jackson. Não precisava me preocupar com o ator por trás, e isso é libertador quando você faz um filme como este, com alguém assim.

Robert Pattinson – Neste caso, como o filme é construído em cima de tantos pequenos momentos — muitos dos quais acabaram acontecendo naturalmente no set, graças à Lynne — você precisa ter algum nível de confiança no seu parceiro de cena, além de entusiasmo para descobrir coisas juntos.

Pergunta – “Morra, Amor” caminha por uma linha incrível entre paixão e explosividade. Isso é exatamente o que muitos relacionamentos são. Queria saber se vocês dois poderiam falar sobre a “coreografia” dessas duas energias. Alguma delas foi mais fácil de acessar?

Jennifer Lawrence – As cenas de briga são realmente divertidas quando você está fazendo com alguém de quem você gosta e com quem se dá bem. Eu sentia que o Rob e eu nem sempre sabíamos exatamente para onde a cena iria, mas a gente meio que acompanhava a energia um do outro. E ele trouxe muita força para o Jackson, sabe? Ele me deu algo contra o que eu pudesse reagir mais intensamente. Então eu diria que as cenas de briga eram as mais libertadoras, porque era como se um saísse correndo e o outro fosse atrás… e você nunca sabe exatamente para onde o outro vai levar aquilo.

Robert Pattinson – E elas têm um certo humor também. Tipo quando eu tento colocar a Jen no carro… é meio bobo, meio engraçado. Sempre parece um jogo de sorte. Especialmente porque, naquela época, a gente ainda não se conhecia tão bem. Eu lembro de ficar andando em ovos nos primeiros ensaios porque eu sabia que bastava dizer uma coisinha errada…

Pergunta – Quanto dos seus próprios mundos emocionais vocês trouxeram para esse papel? E onde traçaram a linha entre a personagem e você mesma?

Jennifer Lawrence – Nunca tive muita dificuldade com essa coisa de levar o trabalho para casa. Sempre foi algo muito separado para mim, porque aquilo que me deixaria chateada — ou até a maneira como eu ficaria chateada — é diferente da forma como uma personagem reagiria. Para mim, o processo é muito mais sobre usar a imaginação e a empatia, imaginar como seria se eu estivesse sensível, se estivesse sendo ignorada… esse tipo de coisa. E o Rob e eu estávamos em momentos parecidos da vida. Nós dois éramos novos pais durante as filmagens. Então havia muitas experiências que podíamos trazer para a mesa para adicionar camadas à história. Mas, no fim das contas, não senti que estava trazendo nada literalmente tirado da minha própria vida para a personagem.

Robert Pattinson – Não sei se trouxe algo literal. Acho que tive uma reação meio visceral quando li o primeiro rascunho do roteiro e o livro. Eu meio que queria defender o parceiro masculino da relação. Mas, ao mesmo tempo, acho que essa é a forma como eu abordo qualquer personagem: mesmo que ele seja desprezível, mesmo que a função dele — especialmente no livro — seja ser quase uma criatura inútil, uma sombra que personifica a decepção dela com a vida… ainda assim, seria entediante interpretá-lo apenas como um cara jogado no sofá, um completo fracassado. Então você precisa criar alguma coisa, dar alguma substância a ele.

Pergunta – Queria saber como vocês veem essa necessidade de um cinema voltado para o público adulto, que provoque discussões sociais.

Jennifer Lawrence – O mais incrível de trabalhar com uma artista como a Lynne Ramsay é que tudo começa parecendo uma coisa, mas acaba gerando tantas outras conversas. À primeira vista, claro, “Morra, Amor” é sobre pós-parto e sobre como uma relação muda depois que o casal tem um bebê. Mas a Lynne é tão profunda, tão dimensional… ela enxerga através da história, da personagem, dos motivos por trás de tudo.

Até a decisão de fazer os personagens se mudarem — no livro eles simplesmente vivem na França, não há mudança. Isso é algo gigantesco de se acrescentar para uma nova mãe. Via isso até no figurino: dá para perceber que a gente destoa completamente quando chega, e depois você vê minha personagem começando a se misturar com o resto do grupo.

E também tem a personagem da minha sogra, interpretada pela icônica Sissy Spacek. Ela acabou de passar por uma perda, e eu também passei por uma perda — uma versão de perda — que é a morte do seu “eu” anterior antes de ter um filho. Havia tantos elementos na história que se acendiam e continuavam queimando… e é por isso que trabalhar com uma artista como a Lynne é um presente.

Robert Pattinson – Pessoas que eu conheço começaram a ver o filme agora, e é fascinante perceber quem tem uma conexão realmente profunda com ele e quem simplesmente foi assistir por conta própria — não necessariamente indo à estreia, só indo ver o filme mesmo. Recebi algumas mensagens, e é curioso como a reação delas faz você entender essas pessoas de um jeito diferente. Sempre acho isso muito fascinante.

Não se trata apenas de cinema adulto ou de temas adultos. O mais importante, para mim, é que ainda existam diretores como a Lynne. Você tem artistas que usam o cinema de um jeito totalmente único. E, quando alguém faz filmes de maneira tão singular, essa singularidade é justamente o que permite que você veja o mundo de um jeito diferente depois.

É claro que isso também torna muito mais difícil para esses artistas conseguirem fazer seus filmes — justamente por serem singulares. Mas é essa singularidade que torna tudo tão importante.

Por isso que as pessoas acabam falando mais sobre esses filmes. Porque você pode assistir algo totalmente homogenizado e não ter nada para dizer quando termina. Mas quando vê algo que tem um certo desequilíbrio, uma intensidade muito concentrada… esse tipo de filme força você a falar sobre ele.

Pergunta – Jennifer, você pode nos contar sobre o seu papel como produtora no filme e o que te atraiu para o projeto e para trazer Lynne e Robert para ele?

Jennifer Lawrence – A maior parte do trabalho como produtora começou muito antes de chegarmos ao set. Tudo começou com conseguir o material — que, como todo mundo já sabe, veio do Martin Scorsese e do clube do livro dele — e depois tentar conectá-lo à cineasta certa, que acabou sendo a Lynne, porque ela é um gênio, uma poeta, e essa obra tem uma natureza profundamente poética. Também tivemos que buscar financiamento para um projeto que, à primeira vista, parecia abordar uma grande questão feminina e ainda por cima tinha classificação R. Foi engraçado, porque todo mundo queria jogar dinheiro na gente, e nós ficamos tipo: “Podem parar, já temos o suficiente.” Todo esse processo sempre acontece bem antes de estar, de fato, no set, e foi a primeira vez em que todas as nossas escolhas A+ para o elenco disseram sim de imediato.

Quando finalmente você chega ao set, não muda tanto assim. No fundo, todos os atores acabam sendo produtores de alguma forma — estamos sempre trabalhando para fazer algo acontecer, para que tudo se realize. Há mil maneiras de ajudar no andamento das coisas ao longo do dia. Então não senti que estava “trocando de chapéu”. Quando o filme foi aprovado e começamos a filmar, grande parte do meu trabalho já estava concluída, até chegar nas etapas finais.

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