A essa altura do campeonato os/as caros leitores/as do Cine Set conhecem e reconhecem a importância da lendária escritora britânica Agatha Christie (1890-1976). Considerada a “Rainha do Crime”, a mente pensante por detrás de clássicos como “Assassinato no Expresso do Oriente”, “Morte no Nilo” e “Os Cinco Porquinhos”, para citar alguns de sua vasta e celebrada obra, revolucionou a literatura no gênero suspense e sendo uma mulher naqueles idos do início e primeira metade do século XX é um notório e celebrado legado.
Por conta disso, volta e meia seus livros ganham mais atenção midiática por conta de alguma adaptação para o audiovisual. E são diversos. A bola da vez é “Os Sete Relógios de Agatha Christie”, minissérie em três capítulos baseada no livro “O Mistério dos Sete Relógios” (1929).
O universo de Miss Christie não se difere de uma obra para a outra. Nesse sentido, a autora era uma exímia estudiosa da decadência da aristocracia britânica. Mascarados em grandes festas, mansões, castelos, viagens luxuosas, porém com muita intriga, inveja e um grande assassinato para mover as peças do xadrez de um jogo sem vitoriosos.
A minissérie dirigida e roteirizada por Chris Chibnall (showrunner de algumas temporadas de Doctor Who) tenta adentrar este universo, mas o resultado final é pífio. Em um bom e direto português, as quase três horas de duração entre os três episódios é um tempo perdido em uma produção sem vida, sem o charme britânico, quase que um esquete de cenas soltas que juntas resultou nessa nova produção da Netflix.
Não há nada de muito novo em sua premissa: ambientada no início da década de 1920, depois de um grande baile de máscaras em prol de uma jogada política, o jovem e charmoso Gerry Wade (Corey Mylchreest) é encontrado morto pela filha da anfitriã da casa, Lady Eileen “Bundle” Brent (Mia McKenna-Bruce), sem muito o que investigar, a polícia finaliza o caso como um suicídio, para o desespero da protagonista e interesse amoroso do falecido. Assim, com ajuda de alguns amigos, ela decide por conta própria investigar o caso, batendo de frente com o Superintendente Battle (Martin Freeman) que ficou à frente do caso.
E é isso.
Não há complexidade, personagens carismáticos, um elo importante que chame e prenda a atenção. Fiquei pensando muito na recente declaração de Matt Damon acerca de como a Netflix orienta os realizadores de suas obras a facilitar na imersão do seu público, reforçando a cada minuto a história. Ou seja, subestimando a inteligência e a própria experiência de quem assiste. Ok, isso é um assunto para um outro momento, mas essa minissérie deixa claro o baixo nível intelectual que eles buscam, deixando suas tramas cada vez mais fast food, ainda que adaptados.
E não há como pensar que, dependendo da direção, como isso prejudica os atores. Mia McKenna-Bruce, por exemplo, não convence em nada, assim como o restante do elenco. Nem nomes como Martin Freeman e Helena Bonham Carter (um pouquinho só mais discreta e afetada como de costume) conseguem desenvolver uma boa relação com esse texto. Resta apenas à direção de arte e figurinos salvar a produção pela estética.
O pior (ou o melhor para quem gostou) é a sensação de uma vindoura continuação nesse universo. Há de se lembrar que em seu livro anterior aos relógios, “O Segredo de Chimneys” (1925), temos a primeira aparição do Superintendente Battle, a própria Lady Eileen, o seu pai, Lord Caterham e alguns outros personagens.
Há um ditado popular aqui no Brasil que diz o seguinte: “entre mortos e feridos salvaram-se todos”. Pois bem, a trama de Agatha Christie tem o seu incontestável valor e não merecia algo tão opaco e sem vida como “Os Sete Relógios de Agatha Christie” que desde o seu início já deixa claro quem é o assassino; a grande questão é a motivação e seus cúmplices, que também não convence.
Entre os mortos e os feridos, era melhor ter deixado o livro na imaginação de quem lê e aprecia uma boa leitura.














