Curiosidade básica: vocês sabiam que, historicamente, no berço da civilização, isto é, África, nos antigos e grandes clãs, impérios e estados-nação, além de serem liderados por reis, havia uma linhagem de matriarcado/matrilinearidade? Mulheres fortes e guerreiras denominadas Senhora Cuxe ou Rainhas Candace, isso por volta 170 a.C., na Núbia. Essa história de mulher domesticada e inferior ao homem é coisa ocidentalizada que ainda impera nos tempos atuais.
Mas também ao longo dos séculos, as mulheres super modernas para as suas épocas ousaram ir contra à ordem social: Enhedeuanna, considerada a primeira escritora do mundo na Mesopotâmia, 2300 a.C.; Safo de Lesbos, poesia lírica e do prazer, o “ser lésbica” advém de suas escritas (Grécia 630 a.C.); Cristina de Pisano e a primeira obra em defesa dos direitos femininos em 1405; Mary Wollstonecraft e o pensamento feminista no século XVIII e Maria Firmina dos Reis (1859), primeiro romance escrito e publicado por uma mulher e negra no Brasil. Isso para ficarmos no âmbito literário e guardando anacronismos à parte por conta do recorte de território, nome e raça, são histórias, como já tido, modernas para e época e que conversam, uns mais outros menos, com a mulher moderna do século XXI.
E por quê estou falando disso? Bom, “Juntas e Separadas” parte do princípio à ode feminino e amizade entre mulheres. E que mulheres são essas? A dupla Thalita Rebouças e Juliana Araripe coloca em voga o protagonismo feminino nos seus dilemas internos e morais, na correria do dia a dia, da vida comum (ou nem tão comum assim) de quatro amigas inseparáveis, beirando aos cinquenta anos, com todos os desejos e necessidades que o corpo e mente anseiam.
Laura (Sheron Menezzes) é uma apresentadora de TV que enfrenta desafios na profissão e na vida íntima com o fim do casamento de vinte e quatro anos; Ana Lia (Natália Lage) é a produtora do programa lidando com profissão e filhos; Claudinha (Débora Lamm) está separada de um homem abusivo e com duas filhas pequenas e Joana (Luciana Paes) é uma advogada que abdica da profissão para seguir o sonho de ser atriz. Mulheres tão diferentes e tão iguais na busca de afirmação do seu espaço, da vida sua e dos seus quereres.
O grande X da questão aqui é que não há absolutamente nada de novo ao longo dos dez episódios. Está tudo junto e misturado, se me permitem o trocadilho: mulher bem-sucedida sucumbida e traída por um homem medíocre; a mulher de meia idade que enfrenta a síndrome do ninho vazio com a saída de uma das suas crias de casa para voar, com um adendo de se relacionar com um homem bem mais novo e amigo do seu filho; uma mulher que aceitou muito tempo calada a violência do marido (e violência nem sempre é física!) em nome das filhas pequenas e outra que é herdeira que não sabe muito para onde ir, pois sempre teve tudo e todos para cuidar de si.
Essa breve síntese do “dilema da mulher moderna”, já vimos em diversas ocasiões em séries como “Malu Mulher” (1979-1980), “Retrato de Mulher” (1992-1993), “Divã” (2011) e nas novelas do Manoel Carlos, todos com muito mais complexidade e comprometimento com o que está falando.
Calma, não que não haja comprometimento em “Juntas e Separadas”, mas tudo me parece tão profundo quanto um pires, tudo fácil demais, maniqueísta demais. Talvez por conta da sua criadora, Thalita Rebouças ser amplamente reconhecida por produções voltadas para o público infanto-juvenil. E, na sua primeira imersão no mundo adulto, ainda ressoe os maneirismos do seu texto. As vezes as personagens são muito infantilizadas e isso, ao meu ver, dificulta a conexão com o enredo e protagonistas. Até a escalação da Louise Cardoso, como uma mãe narcisista remete um pouco a personagem da mãe da Tati (Heloísa Perissé), lembram daquela adolescente? Pois bem!
Falando de protagonistas, o grande triunfo são as atrizes selecionadas, saindo do óbvio da escalação, todas elas brilham com excelência e carisma que dá gosto de vê-las em cena, mesmo com os pormenores citados. Destaco a Luciana Paes que dentre as quatro é a menos reconhecida a nível de público e bons papeis na TV, em um show de talento e química até com um copo de drink na mão.
Mesmo com todas essas mulheres fortes e que trilharam os seus caminhos, suas histórias giram em torno do homem, seja o homem idealizado (como Laura que se relaciona com três e eles não são nada do que ela vislumbra), o ninho vazio do filho e de um jovem apaixonado tão rapidamente; o homem mulherengo, abusivo, machista e preconceituoso que persegue a ex ou no caso de Joana que vive pelo pai idoso e encontra abrigo no ex-marido, um afetadíssimo Mateus Solano. Claro, aquele garçom, do nosso bar preferido que sabe tudo da nossa vida e conselheiro, em aparições quase que afetivas de Thelmo Fernandes.
Com direção de Mini Kerti, Rebeca Diniz, Jéssica Queiroz e parceria da Conspiração Filmes e Globoplay, “Juntas e Separadas” não apresenta nada de novo, a não ser os usos da tecnologia e suas linguagens para dar um panorama nessa “mulher moderna do século XXI” enquanto estão em crise por diversas questões. É um apanhado de muita coisa, sem complexidade, mas que ganha forma, vida e vitalidade através do seu elenco afiado, talentoso e carismático.
E só.














