É possível uma franquia chegar ao seu sétimo título com algum fôlego? Afinal de contas, em algum momento é preciso largar a fachada e admitir que só estamos aqui pelo dinheiro. No caso de “Pânico 7”, isso significa se contentar em fazer o feijão com arroz da forma mais preguiçosa possível, com breves acenos risíveis à sua pose espertinha de outrora.

O que talvez tenha a ver com o drama dos bastidores. Com a saída de Melissa Barrera (que estrelou os dois últimos filmes) e o vai-não-vai envolvendo Neve Campbell, coube ao criador da franquia, Kevin Williamson, consertar toda a bagunça. Desta vez, ele assina não só o roteiro — como foi de praxe até o quarto capítulo da saga —, mas também a direção.

Ninguém realmente esperava que Williamson fosse um novo Wes Craven (e quem é?). Ainda assim, depois de décadas escrevendo filmes para o mestre, talvez pudéssemos imaginar que o roteirista tivesse absorvido ao menos algo da fluidez da sua câmera, do peso das suas imagens. Nada: Williamson filma com toda a graça e energia de um idoso aposentado que foi obrigado a levantar da cama.

Tudo é rodado daquele jeito modorrento, mal iluminado e cinzento que já estamos acostumados a encontrar nos cinemas. Williamson até desperta do sono para um ou outro detalhe sanguinolento — um sujeito pendurado pela cabeça em uma alavanca de máquina de chope, cuspindo sangue e cerveja pela boca, talvez seja a melhor morte do filme. Mas a impressão que se tem é a de que todos estão apenas cumprindo o protocolo: esta franquia já perdeu o fio da lâmina há tempos.

Os dois últimos filmes da saga, dirigidos pela inócua dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillet, ao menos acenavam, sem muito sucesso, é verdade, na direção da novidade — o papo das legacy sequels em “Pânico V”, a mudança de cenário em “VI”. Williamson, por sua vez, sequer tenta disfarçar a mediocridade do seu projeto; seus pecados poderiam até ser perdoados se isso significasse um longa que abraça suas limitações, mas o que temos é um desinteresse gigantesco do início ao fim. 

Vejamos um exemplo: em outros filmes da série, a sequência de abertura poderia servir para subverter nossas expectativas ou dar o pontapé inicial ao mistério. Aqui, o único motivo para termos a cena que temos é porque aprendemos a esperar um gostinho da matança antes da cartela inicial. Não só ela não informa absolutamente nada do que veremos pelos 100 minutos seguintes, como também parece forçada — para viver o nerd de filmes de terror que será sumariamente dizimado, Williamson escala um ator bonitão com toda pinta de atleta. Não sei você, mas eu nunca conheci um cinéfilo maromba.

Há outros elementos dúbios. Lá pelas tantas, surge a obrigatória cena em que os personagens se reúnem para discutir os suspeitos e suas motivações. Geralmente, é aqui que os filmes da saga convocam abertamente esta ou aquela convenção hollywoodiana para fazer graça: as regras clássicas do terror, das trilogias etc. Desta vez, uma personagem dispara que o mote por trás da matança é a nostalgia. Assim, quase en passant.

E é verdade — tudo que temos aqui é a alusão preguiçosa a elementos já conhecidos. Mas que o filme não tenha tentado articular esse tema em nenhum momento faz com que a fala soe mais como uma confissão amargurada do que qualquer outra coisa.

Antes que os leitores perguntem, há, sim, uma trama em “Pânico 7”. Ela envolve o retorno de Stu (Matthew Lillard), diretamente do primeiro filme, cuja presença aqui pode ou não estar ligada ao uso de deepfakes. Pouco importa: não se trata de uma apropriação interessante da discussão sobre IA ou coisa do tipo. Esse é apenas um marcador da contemporaneidade que o filme utiliza em busca de alguma relevância. Como Williamson aparentemente não interage com um adolescente desde meados da década de 1990, a única forma que encontra de trazer seu longa para o aqui e agora é por meio desses marcadores vazios.

Está aí a tônica do filme: o produto cansado de uma saga que já não tem mais para onde ir, buscando desesperadamente formas de seguir em frente. Talvez “desesperadamente” seja um pouco demais: “preguiçosamente” é mais apropriado. Seja como for, precisamos parar de desenterrar esses mortos e jogar a derradeira pá de cal sobre suas covas, de uma vez por todas.