Em 2026, dois dos filmes mais falados do ano são do gênero terror: Obsessão e Backrooms: Um Não-Lugar têm dominado boa parte das conversas cinematográficas e chamado a atenção sobre como o público está retomando o apetite por histórias originais capazes de oferecer surpresas ao espectador. Nesse cenário, o que uma franquia velha como A Morte do Demônio ainda pode oferecer dentro do gênero? Bem, a se julgar pelo seu novo longa, A Morte do Demônio: Em Chamas, a saga de horror ainda tem sangue para doar.

Aliás, particularmente, ainda me espanta que hoje em dia nós chamemos A Morte do Demônio de franquia. O longa original, lançado em 1981, marcou época no terror e também no cinema independente: foi filmado nos cafundós dos estados de Tennessee e de Michigan, por uns caras que eram amigos, o diretor Sam Raimi, o produtor Rob Tapert e o ator Bruce Campbell. O orçamento era o de uma pizza calabresa, o que forçou os envolvidos a serem criativos com o uso da câmera e os efeitos de maquiagem. E essa inventividade fez do filme um sucesso, especialmente quando saiu em vídeo, e levou Raimi, Tapert e Campbell a terem carreiras em Hollywood. O filme impressionou tanto pela inventividade e pelo banho de sangue que Raimi teve de defendê-lo num tribunal britânico – é o tipo de coisa que hoje não se vê mais – e os três fizeram mais duas continuações, nas quais doses de humor foram se adicionando à sanguinolência.

Porém, os fãs e Raimi, Tapert e Campbell não deixaram a coisa morrer. Produziram um remake/reboot em 2013, e estão seguindo com histórias isoladas que se conectam naquele universo. Em 2023 tivemos A Morte do Demônio: A Ascensão, e agora este Em Chamas. Os diretores dos anteriores – o uruguaio Fede Alvarez do remake, e o irlandês Lee Cronin, de Ascensão – usaram seus filmes como trampolim para carreiras em Hollywood. O mesmo deve acontecer com o cineasta deste Em Chamas, o francês Sébastien Vaniček.

Neste novo filme, acompanhamos a história de uma família. Alice (Souheila Yacoub), a nossa heroína, é uma francesa morando nos Estados Unidos e casada com um norte-americano, um sujeito que parece legal, mas é abusivo. Quando acontece uma tragédia, a família se reúne para comer torta de climão no jantar e discutir sobre porque Alice não está chorando. Porém, a noite será longa, pois os demônios ligados ao Livro dos Mortos logo vão bater à porta da casa isolada e caindo aos pedaços onde eles estão, pois o avô da família era um estudioso do livro e das terríveis entidades que ele liberta.

Primeiro, os problemas: Em Chamas sofre com uma montagem excessivamente frenética, especialmente no início, que quase atrapalha a experiência de algumas cenas de ação e momentos tensos. O corta-picota do início chega a ser desajeitado, mas felizmente as coisas se estabilizam mais à medida que o longa avança. E a confrontação final com uma criatura feita por computação gráfica destoa dos efeitos predominantemente práticos que o filme vinha mostrando até então, e passam a impressão que o longa poderia ter acabado uns 10 minutos mais cedo.

Porém, nesse meio tempo… Vaniček sabe que está fazendo um filme Morte do Demônio, com Raimi de olho, então ele capricha no que mais importa: a violência, a tensão e o sangue. Em Chamas tem efeitos fantásticos e cenas angustiantes – um encosto de cabeça de um banco de carro nunca foi tão bem usado no cinema, e tem outra cena com um objeto sendo introduzido num ouvido que é… bem, cumpre seu objetivo. É para isso que a gente paga ingresso, no fim das contas.

Vaniček e seu diretor de fotografia Philip Lozano também tomam umas lições emprestadas de Raimi e criam movimentos câmera criativos e bizarros: personagens (e a câmera) sobem pelas paredes, há um plano-sequência poderoso com a heroína fugindo enquanto outros brigam ao seu redor na casa, e essa movimentação técnica é inventiva a ponto de não parecer gratuita e ajuda no suspense. 

E enquanto o humor em Ascensão às vezes parecia deslocado ou como tentativas de fanservice, aqui a narrativa encontra espaço para uma ou outra piada – do tipo macabro – para manter vivo o espírito da série. Mesmo assim, os novos cineastas da franquia podem até imitar as maluquices que Raimi fazia com a câmera, mas não conseguem replicar seu senso de humor demente. Ainda assim, a personagem da vovó de Em Chamas acaba mais do que evocando a cigana de Arraste-me para o Inferno (2009), outro terror de Raimi.

Em meio ao terror, há um curioso tema do fogo percorrendo a narrativa deste novo A Morte do Demônio, e é conduzido bem o suficiente para dar um estofo dramático ao filme sem parecer intrusivo ou, ainda bem, sem torná-lo um daqueles exemplares do gênero que abordam luto ou perda e já viraram clichê nos últimos anos. Este Em Chamas não quer ser mais profundo do que aparenta: é um banho de sangue intenso e que não dá trégua, na tradição de uma franquia rara que ainda não entregou um exemplar ruim. Mesmo no cenário 2026, com filmes melhores e mais originais, A Morte do Demônio: Em Chamas funciona tão bem porque entende de onde veio, e o que precisa entregar ao público.

E já tem um novo filme em pré-produção, para chegar em 2028, e este será ambientado nos anos 1970, antes do longa original. Público e fãs têm motivos para se animar, porque a saga ainda passa longe de ser considerada morta-viva.