Pele de Rinoceronte se passa em 1976, mas suas personagens parecem viver em 2026. O anacronismo não está na reconstrução de época, mas no roteiro, que coloca na boca de mulheres daquele período um discurso muito próximo da linguagem contemporânea sobre misoginia e violência de gênero.

Primeiro longa-metragem ficcional de Marcello Ludwig Maia, o filme acompanha Helena (Débora Falabella) e Maria Thereza (Naruna Costa), duas mulheres que têm suas vidas modificadas pelo assassinato de Ângela Diniz e reagem, cada uma à sua maneira, às consequências do crime. O caso já foi levado ao cinema, no filme protagonizado por Isis Valverde, e à televisão, na minissérie da HBO estrelada por Marjorie Estiano. Maia, entretanto, escolhe outro caminho: em vez de reproduzir novamente a história de Ângela, desloca o foco para as mulheres que observam, investigam e tentam compreender o crime.

Essa escolha é o principal mérito do filme. Pele de Rinoceronte não quer ser apenas uma cinebiografia de Ângela Diniz, mas uma reflexão sobre o medo e sobre as formas silenciosas de violência que se instalam dentro de relações apresentadas como amor. A inspiração de Maia veio dos diários de suas tias, que registravam os acontecimentos publicados nos jornais da época, além das histórias de violência que elas próprias testemunharam ou sofreram. O filme parte dessa memória familiar para transformar um crime conhecido em uma história sobre mulheres que vivem sob a ameaça de que aquilo também possa acontecer com elas.

É justamente aí que surge sua principal contradição. O roteiro é anacrônico, mas o discurso que sustenta o filme é assustadoramente atual. Cinquenta anos depois do assassinato de Ângela Diniz, a violência contra as mulheres continua sendo uma realidade brasileira. O problema está na maneira como o filme traduz essa permanência: ao tentar estabelecer uma comunicação direta com o espectador de hoje, o roteiro de Josefina Trotta frequentemente abandona a linguagem própria de 1976 para adotar formulações que parecem pertencer ao debate contemporâneo.

Isso não significa ignorar que mulheres politizadas e conscientes existiam naquele período. Evidentemente, existiam. A questão é que cada época produz sua própria maneira de nomear e compreender os conflitos que enfrenta. Quando Helena afirma “hipocrisia da família tradicional brasileira”, por exemplo, a frase soa menos como uma fala de uma personagem situada em 1976 e mais como uma formulação construída a partir do vocabulário político atual. O problema não está na ideia, mas na voz que o filme escolhe para expressá-la.

Essa opção fica ainda mais evidente porque Pele de Rinoceronte adota um discurso deliberadamente didático. O roteiro não parece interessado em deixar determinadas questões apenas nas entrelinhas. Ele nomeia o machismo, explicita as relações de poder e estabelece com clareza sua posição diante da violência contra as mulheres. Em alguns momentos, isso torna os diálogos excessivamente explicativos; em outros, a estratégia funciona justamente por não permitir que o comportamento dos personagens seja relativizado.

Débora Falabella interpreta Helena, repórter de um jornal sensacionalista que se oferece para acompanhar o caso numa tentativa de escapar do relacionamento abusivo com o próprio chefe. A atriz faz um trabalho excelente ao construir uma mulher cuja racionalidade vai sendo corroída pelo medo. Medo de se tornar a próxima vítima, de perder a liberdade e de repetir o destino de Ângela.

Helena não se limita a acompanhar os acontecimentos. Ela investiga por conta própria e passa a enxergar o crime a partir da própria experiência. O trabalho jornalístico, portanto, deixa de ser apenas uma função profissional e se transforma em uma tentativa desesperada de compreender aquilo que poderia acontecer com ela. Falabella encontra força justamente nessa transformação gradual, evitando fazer da personagem apenas uma vítima em potencial.

Naruna Costa, por sua vez, imprime à Maria Thereza uma presença mais incisiva. Enquanto Helena reage de maneira visceral ao caso, a advogada funciona como contraponto racional à espetacularização promovida pela imprensa. Costa domina os diálogos e encontra diferentes nuances em uma personagem que precisa constantemente defender sua posição, inclusive dentro de casa.

São particularmente bons os momentos em que Maria Thereza confronta o próprio marido, vivido por Irandhir Santos. Ele não precisa ser um homem abertamente agressivo para reproduzir comportamentos machistas: basta colocá-la dentro de uma posição previamente determinada, como se sua competência profissional não pudesse existir plenamente ao lado do casamento. O filme encontra aí uma observação mais interessante sobre o machismo: ele nem sempre se manifesta em grandes gestos de violência, mas também naquilo que os homens consideram natural.

A personagem ainda carrega uma dimensão racial que poderia receber mais espaço, especialmente na relação com a jovem interpretada por Dhara Lopes, apresentada como uma espécie de pupila da advogada. É uma camada importante, mas o filme apenas sugere as possibilidades dramáticas e políticas dessa relação.

Em paralelo às protagonistas, está Ângela Diniz, interpretada por Camila Lucciola. A personagem aparece pouco, em alguns momentos de sua relação com Doca Street e na deterioração daquele relacionamento até o ponto em que sua maior sensação de alívio passa a ser justamente estar longe dele.

Maia opta por não mostrar o assassinato nem recorrer a cenas de violência explícita. É uma decisão compreensível, especialmente em uma produção que pretende discutir violência contra mulheres sem transformar o sofrimento em espetáculo. Ainda assim, os flashbacks de Ângela são um dos elementos menos necessários da narrativa.

O filme seria mais potente se Ângela funcionasse sobretudo como uma presença ausente: uma espécie de fantasma que acompanha Helena e interfere em sua percepção do próprio destino. Assim, o crime deixaria de ser apenas um acontecimento passado e se tornaria aquilo que realmente interessa ao longa: a maneira como uma mulher morta continua sendo julgada, interpretada e transformada em personagem de uma história que nunca escolheu protagonizar.

Há ainda o didatismo. Pele de Rinoceronte explica muito, às vezes mais do que deveria. Mas, ao contrário de muitos filmes em que essa característica se torna um defeito incontornável, aqui ela encontra alguma justificativa na urgência do discurso. Em um país no qual a violência contra a mulher continua sendo relativizada, talvez o filme não tenha vergonha de ser explícito justamente porque não quer deixar margem para interpretações convenientes.

O problema é quando esse didatismo se soma ao anacronismo. A mensagem é legítima; a forma de colocá-la na boca das personagens nem sempre convence.

O título oferece outra chave interessante de leitura. A “pele de rinoceronte” funciona como metáfora para a carapaça que mulheres precisam desenvolver como mecanismo de sobrevivência diante de uma sociedade que naturaliza agressões, ameaças e controle. Mas a imagem também guarda uma contradição poderosa: nenhuma mulher deveria precisar construir uma couraça para simplesmente existir em segurança.

Essa ideia encontra sua melhor tradução em uma das últimas cenas. Helena dança no bar, livre e sem a tensão que acompanhou boa parte de sua trajetória. Pela primeira vez, parece capaz de respirar sem a presença daquele fantasma sobre os ombros. Não é uma vitória definitiva, mas a possibilidade de recomeçar.

O olhar trocado pelas duas protagonistas no final amplia esse sentido. Elas não se conhecem profundamente e vivem experiências diferentes, mas reconhecem uma na outra algo que não precisa ser explicado. São mulheres separadas por circunstâncias, profissões e personalidades que, ainda assim, conhecem medos semelhantes. O filme sugere, então, uma espécie de solidariedade silenciosa: talvez a proteção também esteja na capacidade de reconhecer a dor da outra.

Pele de Rinoceronte é um filme imperfeito. Seu texto frequentemente parece pertencer mais ao presente do que a 1976, e sua necessidade de explicar determinadas ideias diminui a força de algumas situações que poderiam falar por si mesmas. Ainda assim, há algo valioso em sua insistência. Marcello Ludwig Maia entende que contar novamente o caso Ângela Diniz não seria suficiente. Era preciso perguntar o que aquele crime ainda significa para as mulheres que continuam vivendo sob as mesmas estruturas de medo.

“Se algum dia o amor vier me procurar, diz a esse monstro que eu fugi de casa.”

É com essa frase que o filme começa e é com ela que vale a pena encerrá-lo. Porque, depois de tudo que Pele de Rinoceronte tenta discutir, há uma certeza que não depende de época, linguagem ou interpretação: violência jamais será amor.