Os anos 2000 nunca estiveram tão em alta quanto nos últimos tempos. Graças a estética Y2K (lê-se years two thousand), arrisco dizer que estão mais em alta hoje do que nos próprios anos 2000. E é exatamente nessa onda de nostalgia que “Chorão: Só os Loucos Sabem” parece basear sua existência, porque não existe outro motivo para tal.
Livremente baseado no livro escrito por Graziella Gonçalves, viúva do líder do Charlie Brown Jr, o longa supostamente escolhe a relação entre os dois como principal caminho para contar a trajetória do vocalista. É uma escolha que poderia funcionar, se o roteiro não buscasse tratar Chorão como um adolescente birrento de 40 anos e aquilo mostrado na tela fosse realmente uma história de amor. A produção, entretanto, espelha mais um relacionamento tão abusivo quanto o visto em “Pele de Rinoceronte”, outro filme da mostra competitiva de longas-metragens do Festival de Gramado 2026.
Chorão: Só os Loucos Sabem soa perdido entre tantos acontecimentos e dentro da própria estrutura narrativa. Graziela começa narrando a história, mas some durante grande parte do filme até ser resgatada lá pela reta final. Linha temporal praticamente não existe e os fatos aparecem como lembranças aleatórias colocadas em sequência. Brigas, shows, encontros e momentos importantes jamais são entrelaçados por uma construção que faça um episódio levar naturalmente ao outro.
Em um momento, Chorão é um adolescente revoltado de mudança com direito a uma caracterização tenebrosa de José Loreto. Logo depois, já surge como pai, mas então os créditos sobem e você fica sem saber quem é a mãe e da onde essa criança surgiu. Em outro, a mãe está doente, no outro 100% saudável e quando você pisca, o pai está com câncer e fica por isso mesmo. O pior é a banda: o Charlie Brown Jr. foi um marco do rcok nacional, mas se depender desse filme, você jamais saberá a real dimensão do sucesso deles. O resultado aqui é uma história que parece mais uma coleção de acontecimentos do que uma narrativa de fato.
O longa mostra muitas coisas, mas entende pouco o personagem que está tentando retratar. Existe uma oportunidade interessante na figura de um homem que, apesar da idade e do sucesso, carregava consigo um comportamento quase adolescente. Chorão era, de certa maneira, um adolescente adulto: impulsivo, inquieto, extremamente intransigente, mas apaixonado e muitas vezes incapaz de lidar com as próprias emoções. José Loreto leva essas características ao extremo e transforma todas as cenas em uma explosão. O ator sobe o tom constantemente, exagera nos gestos e acaba deixando tudo sempre um tom acima.
É nítido como Loreto fez questão do quanto queria esse papel e de que existiu uma entrega e dedicação na composição, mas falta justamente aquilo que poderia tornar a interpretação mais interessante: contenção. O resultado é curioso porque, em vez de desaparecer dentro de Chorão, o ator muitas vezes chama atenção para o próprio esforço de interpretação. Quem assistiu Bradley Cooper em “Maestro” entenderá exatamente o que estou apontando. A impressão é de que estamos vendo Loreto interpretar uma ideia de Chorão, e não Alexandre, o homem por trás daquela persona.
Logo, acaba por ser um reflexo natural sobre Chorão: Só os Loucos Sabem nunca consegue mostrar a verdadeira dimensão do Charlie Brown Jr. A banda aparece, faz shows, lança músicas e todas essas cenas são bem feitas. Se há algo positivo da cinebiografia comandada por Hugo Prata e Felipe Novaes, é como a energia das músicas e das apresentações ressoa na tela. O problema é ir além e não transmitir o tamanho daquele fenômeno cultural. Chorão não era apenas o vocalista de uma banda de sucesso, mas alguém que dialogava diretamente com uma geração inteira. Faltam no longa a sensação de multidão, a força do público e a importância que aquelas músicas tiveram para tantos jovens. O grupo santista acaba parecendo mais uma gota no oceano para a história pessoal de Chorão do que como parte essencial daquilo que o consagrou como mito de uma geração.
A anti cereja do bolo fica justamente naquela que deveria ser a principal linha narrativa do filme. A ‘linda história de amor’ passa longe com uma série de um homem intransigente, que tenta apagar a estrela de uma mulher para arrastá-la ao fundo do poço com ele. Em uma edição do Festival de Gramado de longas brasileiros marcados pela temática da violência contra a mulher, a romantização de tais atitudes é no mínimo constrangedor.
No fim, Chorão: Só os Loucos Sabem parece um grande exercício para mostrar até onde José Loreto consegue ir na construção de um personagem tão popular. O problema é que existem histórias que são muito maiores do que a performance de quem o interpreta. E histórias que podem ser mais interessantes do que apenas caça-níqueis de viciados em nostalgia.















