Há algo de curioso em me aproximar de um documentário sobre futebol sendo alguém que, para além de não ser dos maiores apaixonados pelo esporte, carrega uma antipatia considerável pelas engrenagens que o sustentam como instituições permeadas por torcidas organizadas que transbordam violência, jogos de azar legitimados e uma masculinidade tão frágil quanto ruidosa. Talvez justamente por isso, “Placar: A Revista Militante” — de Ricardo Corrêa e Sérgio Xavier Filho — me interessa: não pelo grito da arquibancada, mas pela possibilidade de enxergar como uma publicação esportiva se tornou trincheira política em plena ditadura militar.

O filme revisita a trajetória da revista Placar como veículo capaz de ir muito além da bola rolando, tornando-se espaço de denúncia, enfrentamento e debate público. Há força no uso de imagens de arquivo, na reconstituição visual da publicação e nas entrevistas que revelam bastidores pouco conhecidos para aqueles não tão chegados no universo do futebol, como o papel da revista no fim da “loteria da zebrinha” — uma forma de jogo de azar que já apontava a velha relação promíscua entre o esporte e apostas, e que encontra eco hoje nos escândalos das bets. Esse paralelo, aliás, surge como lembrança incômoda: as promessas de moralização sempre esbarram no lucro fácil e a história parece se repetir com mais sofisticação tecnológica e a mesma complacência institucional.

No entanto, se o material histórico e a importância simbólica são inegáveis, a construção do documentário se mostra excessivamente centrada no eixo paulista, tanto nas narrativas quanto nas figuras escolhidas. O recorte estreito reforça a sensação de que o futebol nacional existe majoritariamente no Sudeste, deixando de fora olhares e contextos que poderiam enriquecer o panorama. Zico e Afonsinho aparecem como vozes externas, mas mais para confirmar o argumento editorial da revista do que para tencioná-lo.

Essa limitação se acentua no núcleo de entrevistados: majoritariamente ex-funcionários da Placar, com destaque óbvio para Juca Kfouri, que domina o discurso com carisma, mas também com o viés de quem narra a própria história. O resultado é um documentário que, por vezes, parece institucional, mais interessado em reforçar a mitologia da revista do que em confrontá-la. O formato — bastante expositivo, dependente de narrações e depoimentos — reforça esse tom, como se cada ponto precisasse ser sublinhado para um público incapaz de lê-lo nas entrelinhas.

“Placar: A Revista Militante” funciona como porta de entrada para quem deseja entender a interseção entre futebol e política no Brasil, especialmente no período da ditadura. Mas para quem espera um retrato plural, aberto a contradições e a olhares externos ao núcleo editorial, o filme deixa a sensação de um jogo jogado em campo reduzido. Entre a memória e a militância, o placar final revela mais sobre o próprio time do que sobre o campeonato que pretendia mapear.