O carma é real? Ele existe mesmo ou é apenas a consciência ecoando na mente? O cartunista mundialmente premiado Rafael Corrêa pode falar melhor do que eu sobre isso. Afinal, ainda na infância, ele foi capaz de jogar uma pedra em um sapo, esmagando o seu lado esquerdo. Ironicamente, anos depois, os primeiros sintomas da esclerose múltipla surgiram justamente no lado esquerdo do artista. Seria isso carma?
Questões à parte, “Memórias de um Esclerosado” é um resgate memorial de Rafael. Com interposições de imagens da infância, da juventude sadia, cheia de vida e brilho no olhar, além de suas tirinhas, o filme — dirigido em parceria com Thais Fernandes — é também um passeio por devaneios, sonhos e certezas de alguém que teve sua vida sentenciada por uma doença degenerativa, mas que não deixou de produzir por conta das limitações. Rafael é espirituoso e a oportunidade de registrar sua história é um privilégio.
Nesse sentido, o filme é bastante sensorial na busca por soluções, como a reforma de um banheiro adaptado ou o acompanhamento de auxiliares para tarefas básicas. Também é interessante a opção pela primeira pessoa — isto é, ele é o centro, sua voz, enquanto pode ser ouvida, é o foco aqui. Ainda que tudo seja bastante roteirizado, “Memórias de um Esclerosado” perde parte de seu brilho e impacto.
Uma doença agressiva como esta realmente assusta e causa transtornos — e Rafael, mesmo com toda a sua espontaneidade, demonstra uma vulnerabilidade compreensível, inclusive nas limitações que a cidade impõe às pessoas com mobilidade reduzida. Espaços acessíveis, tanto no âmbito privado quanto no público, são fundamentais. E, mesmo que essa não seja a mensagem central aqui, não deixa de ser um alerta que há muito tempo merece atenção.
Voltamos ao carma do homem-sapo. Seria Rafael Corrêa, agora, o sapo que ele feriu na tenra infância?












