De certa forma, a franquia Planeta dos Macacos é perfeita para os nossos tempos: vivemos em um mundo com guerras, desastres climáticos e pandemias. Diante disso, imaginar que a raça humana seja extinta ou que perca o domínio sobre a Terra não parece assim tão distante ou impossível, como um dia possa ter parecido.
A série nasceu sob a sombra da aniquilação atômica com a obra-prima Planeta dos Macacos (1968), um filme que não envelhece. Hoje os temores são outros, mas no contexto atual uma nova produção da saga se encaixa muito bem. E então temos este Planeta dos Macacos: O Reinado, o primeiro da saga após a compra do então estúdio Fox pela Disney e que também segue os passos da bem-sucedida trilogia recente que revitalizou a marca.
Ambientado séculos depois da jornada de César, o líder que despertou a inteligência dos macacos e os levou a se tornar a espécie dominante no planeta, este novo filme traz como protagonista o jovem Noa (vivido por Owen Teague), que vive com a família e amigos num clã pacífico. Sua vida é transformada quando outro clã, que alega seguir os ensinamentos de César, ataca a aldeia. Noa também se depara com uma estranha humana (Freya Allen), que parece demonstrar sinais de inteligência. Juntos, eles embarcarão numa jornada que pode mudar o destino da relação entre macacos e humanos.
AVENTURA DIGNA EM TODOS OS SENTIDOS
O roteiro de Josh Friedman não é inteiramente à prova de balas – alguns pontos importantes da trama ficam mal explicados – mas é hábil em lançar algumas surpresas inteligentes para o público, incluindo aí algumas referências ao original, como uma cena de caçada que chega até a reutilizar trechos da clássica trilha sonora de Jerry Goldsmith. E a direção de Wes Ball – cria do estúdio Fox, por ter dirigido os filmes Maze Runner – faz com que O Reinado se torne uma experiência envolvente. Ball está um pouco distante de Matt Reeves, diretor que comandou os dois melhores filmes da trilogia anterior, e O Reinado não tem um desempenho no quilate de um Andy Serkis, mas consegue fazer o básico bem-feito e criar mais uma aventura épica digna da franquia.
Visualmente, Planeta dos Macacos: O Reinado mostra um refinamento na tecnologia da captura de performance que deu vida aos macacos na trilogia anterior: cada personagem é altamente expressivo, tem marcas e defeitos nas pelagens, em suma, todos parecem vivos. Não deixa de ser novamente impressionante a riqueza das interações entre personagens criados no computador: algumas cenas entre Noa e seu pai, ou entre o herói e seu mestre, o orangotango Raka (Peter Macon, ótimo), são repletas de sutilezas nos desempenhos.
E há algumas sequências de ação realmente impressionantes e visuais grandiosos que servem para ampliar ainda mais o mundo visto na trilogia anterior. É difícil não comparar com o que James Cameron fez nos filmes Avatar, mas Planeta dos Macacos continua um competidor à altura. Porém, é nos subtextos dentro da história que O Reinado se sobressai.
AURA PESSIMISTA
Planeta dos Macacos: O Reinado aborda diversas temáticas, mostrando o mundo dos macacos como um reflexo estranho do nosso: há fanatismo religioso – o líder do clã inimigo, Proximus (Kevin Durand) deturpa a palavra de César a seu favor – preconceito e o velho debate sobre a possibilidade (ou não) da convivência entre macacos e humanos. Nada disso é realmente novo para a franquia, mas a obra faz uso desses elementos familiares de forma interessante e valoriza a complexidade presente nessas temáticas.
Perto do seu desfecho, O Reinado começa a parecer menos uma evolução para a franquia, e mais uma preparação de terreno para novas continuações. Porém, mesmo assim, o filme mantém um tom intrigante que pode apontar para bons desenvolvimentos no futuro. E meio que sabemos para onde esse futuro vai: Planeta dos Macacos é uma saga pessimista por natureza, embora alguns dos filmes tenham tentado achar uma esperança aqui e ali.
A essência desses filmes, ditada pelo original de 1968, é a de que o ser humano vai ser, no fim das contas, o causador da sua própria destruição – uma noção infelizmente ainda muito presente, e poderosa, e que cineastas ainda demonstram saber explorar, e bem, mesmo quase 60 anos depois.













