“Predador” é uma franquia que consolidou sua importância pelo impacto da figura misteriosa que dá o significado do título: a raça alienígena Yautja. O simples prazer pela caça, a inteligência tática e supostos códigos morais caracterizaram as histórias dos filmes, sempre colocando personagens humanos em uma saga de sobrevivência, terminando quase sempre como vítimas dos aliens. O mistério sobre a aparência do vilão também sempre foi ponto forte da série, visto toda a tensão que causava no aflito público.

Em “Predador: Terras Selvagens”, eis que essa abordagem muda e a saga se desapega da fórmula, tornando um espécime Yautja o próprio protagonista. Ainda bem, por sinal: dessa forma, o longa não procura, como os anteriores, ocultar a forma das criaturas e sim mostrá-las sem pudor. O roteiro de Patrick Aison e Dan Trachtenberg estabelece um conflito familiar em que a característica da caça é colocada em pauta como um motor a ser discutido e problematizado e não como o fim em si mesmo da jornada. 

Nesta nova abordagem, temos uma introdução potente com um embate entre três figuras centrais: o protagonista Dek (Dimitrius Schuster-Koloamatangi), seu irmão mais velho e o pai (Reuben de Jong), o líder de seu clã. O cenário exótico nos quais residem os Yautja com seus interessantes artefatos e armas, atributos da ótima direção de arte de Andy McLaren e Adam Wheatley, junto à trilha sonora potente e tribal de Sarah Schachner e Benjamin Wallfisch, trazem uma imersão única a esse mundo. Derrotado em um duelo, Dek passa a ser considerado o mais fraco do clã e indigno de viver, segundo a cultura local. O sacrifício do irmão, porém, o faz se tornar um grande guerreiro sobrevivente. Através dessa família de Yautja, temos a individuação das criaturas, cada uma com sua personalidade e motivações, uma proposta nova que traz frescor à franquia, com direito a diferenças físicas – Dek é mais avermelhado do que os outros, por exemplo, assim como seus olhos são mais destacados e a boca é maior do que o do design original de Stan Winston. 

Ao ser lançado de seu planeta natal Yautja Prime para numa nova realidade em outro planeta, Genna (o uso da palavra hebraica para “inferno” não é por acaso), Dek é colocado frente a um ecossistema hostil que se mostra um verdadeiro predador por si só. Nesse sentido, destacam-se os efeitos visuais muito competentes em representar a flora peculiar do planeta e as gigantescas criaturas que compõem a fauna e que rivalizam, pra não dizer “superam”, o Yautja em força.

Dessa forma, Dek passa a ser uma presa que precisa ser violenta para se defender e não como um propósito de vida. Portanto, a palavra que dá nome à franquia deixa de dizer respeito aos aliens da raça Yautja e passa a ser sobre tudo o que de cruel essa natureza tem, numa ambientação ficcional que exagera o aspecto trágico de nossa própria natureza. Afinal, ela consiste de predadores e presas sujeitas a uma cadeia alimentar numa saga cíclica de sobrevivência que pode trazer dilemas sobre o próprio sentido da  existência. Nesse quesito, a presença da androide Thia, interpretada por Elle Fanning, coloca Dek de vez em uma jornada não só de sobrevivência, mas de redenção, sendo ela seu maior auxílio para aprender a se virar nesse imprevisível planeta e também um combustível emocional que fará o protagonista reinventar sua identidade e seu papel no mundo. 

É aí que o filme revela de vez seu tom de aventura e ação também regada a momentos de humor, que ora ressalta o aspecto sentimental da obra de forma eficiente, ora soa demasiada e prejudicial à tensão que “Predador: Terras Selvagens” deveria carregar dentro da proposta da franquia à qual pertence. O terror definitivamente não é um elemento aqui. Sobretudo, o uso da violência gore também deixa de existir de um ponto de vista realista, já que, além das criaturas da fauna local de Genna, não há humanos e sim androides exploradores, possibilitando apenas a violência fantasiosa. Sai o sangue humano vermelho e entram os fluídos de criaturas gigantescas e circuitos de corpos biônicos, destroçados com maior ou menor pudor dependendo da cena, no maior estilo Samurai Jack. Deste modo, a obra parece querer apelar para um público mais amplo, com uma classificação indicativa mais acessível.  Temos aqui o Predador family-friendly, que pode desagradar os fãs mais puristas da saga, mas também cativar um novo público. 

O único problema na trama dentro dessa proposta é a falta de uma relação muito clara entre as experiências vividas por Dek em Geena e seu êxito no duelo final a partir disso. Entretanto, o aspecto emocional é bem eficiente. Semelhante ao que foi feito com o Boba Fett da saga Star Wars nas séries do  Disney Plus, o protagonista de “Predador: Terras Selvagens” renuncia seu papel de figura cruel e calculista para se tornar um anti-herói que ressignifica sua identidade de  guerreiro e, nesse caso, o próprio conceito de liderança, como tendo a ver mais com proteger e conservar do que com destruir e matar. Nesse sentido, cabe elogiar a  explicação de Thia, ainda que muito breve, sobre o conceito de macho alfa, herdado do comportamento dos lobos, algo que historicamente foi completamente distorcido pelo inconsciente coletivo para justificar a arrogância humana e a masculinidade agressiva e  tóxica. 

Ao contrário de obras que, na tentativa de humanizar um personagem-título imponente  (sim, “Superman” do James Gunn, eu ainda estou falando de você), o enfraquecem e acabam por descaracterizar aquilo do qual depende seu próprio conceito (ao contrário de “Homem de Aço”, que soube extrair dessa própria característica um conflito importante para o herói), “Predador: Terras Selvagens” o faz de modo bem mais  competente, ao aproveitar uma lacuna representativa da franquia para trazer camadas que enriquecem sua narrativa. 

Apesar da desconstrução e da mudança de perspectiva dentro da franquia, ainda há uma  fórmula nessa trama que já vimos bastante em obras mainstream, porém aplicada de  uma maneira particular e que possibilita uma expansão de mitologia para Predador, com  direito a cliffhangers ao final que são bem satisfatórios. Depois de Tron, parece que temos mais uma aposta da Disney numa revitalização de franquia, capitaneada por Dan Tratchenberg, que acredito que possa dar certo, se manter uma consistência inovadora que dê sentido à continuação da saga, inclusive com sua relação com a franquia Alien. 

Temos aqui uma divertidíssima e acertada aventura com grande potencial para encaminhar um futuro da saga nos cinemas para além do streaming. E isso já é bem melhor do que os cínicos remakes em live action que reinam no nosso querido estúdio do camundongo.