Quis o destino que eu assistisse ao ótimo “Centro Ilusão” um dia depois do péssimo “Alarme Silencioso”. O curioso é que os filmes têm coisas em comum. Ambos colocam o trabalho e o processo criativo em primeiro plano. A diferença é que, enquanto “Alarme Silencioso” enxerga a trupe de atores em cena como trovadores da consciência, sem perceber o quão insosso seu trabalho realmente é, este longa de Pedro Diógenes volta sua atenção para uma dupla de fracassados. Quase como um “Inside Llewyn Davis” cearense.

Há ainda uma diferença mais elementar entre os longas: os artistas de “Centro Ilusão” têm não só algo a dizer como a perder, e há um senso de urgência permeando o filme. Fora que é bem melhor acompanhar artistas cujo trabalho é de fato interessante.

Eles são Kaio (Bruno Kunk) e Tuca (Fernando Catatau), dois cantautores que se conhecem durante a seleção para um laboratório musical. Tuca é velho, de ar cansado, barba grisalha, uma figura esguia e monocromática atrás de um par de óculos escuros. Já Kaio, jovem de vinte e poucos com cabelo multicolorido, é puro entusiasmo. Ambos estão quebrados; Tuca passa a simpatizar com o rapaz depois de vê-lo passar seu chapéu em uma praça para comprar um jogo de cordas novo.

As criações dos dois seguem estilos diferentes. Kaio aposta no jogo de palavras inteligentes e no palavrório bem ritmado, enquanto Tuca parece seguir uma linha mais direta, crua, confessional. É ótimo assistir a essa dupla, neste que é basicamente um filme de hang-out: acompanhamos a dupla enquanto esperam o resultado da tal seleção e choram suas pitangas. 

Diógenes mantém sua câmera mais ou menos distante enquanto os personagens caminham pelo centro de Fortaleza, em cenas que parecem ter um quê de improviso. O olhar indagador de transeuntes curiosos é uma constante nesses momentos, que Diógenes não apenas permite, como abraça. Faz a coisa toda adquirir ares de happening nessa relação dos atores com os arredores. 

Os dois, aliás, estão ótimo. Seria fácil tornar Tuca um mero velho ranzinza, mas Catatau imbui seu personagem de uma melancolia tocante. Já Kunk impressiona pela intensidade de seu olhar; suas reaction shots ficam na memória.

“Centro Ilusão” é, enfim, mais um belo exemplar recente no panteão dos grandes filmes sobre pequenos artistas. Outro exemplo é “Peixe Abissal”, de Rafael Saar, documentário sobre o cantautor carioca Luís Capucho. Mas eu também pensava na obra-prima criminalmente pouco vista do criminalmente pouco conhecido Matt Farley durante a projeção: “Local Legends”, a autobiografia em forma de ficção de um artista que jamais angariou mais do que meia dúzia de seguidores na sua cidadezinha local.

Por que, depois de toda uma vida no ocaso, esses criadores optam por seguir em frente? O que os filmes nos mostram é que não é bem uma escolha; sua obra é tudo que eles têm.