Como seria um mundo dominado pelas mulheres, em uma cultura que as favorecesse, tal qual ocorre com os homens em nossa sociedade? Essa é a premissa de Primeiro as Damas, nova comédia da Netflix estrelada por Sacha Baron Cohen e Rosamund Pike,  remake estadunidense do filme francês Eu Não Sou um Homem Fácil, de 2018. 

Sacha interpreta Damien Sachs, um executivo de uma agência de publicidade e mulherengo misógino. Quando uma empresa responsável por uma campanha publicitária voltada às mulheres hesita em contratá-los pela falta de mulheres em cargos de liderança, ele decide promover aleatoriamente uma diretora de criação apenas para não perder a parceria. Isso só mostra que, ao contrário do que muitos dizem, quem lacra, lucra sim – para bem e para mal. No caso do filme, temos o chamado diversity washing (lavagem de diversidade, em português), quando empresas aderem a campanhas de inclusão social apenas pensando no lucro que podem obter com isso, sem real preocupação com esses valores. A escolhida por motivos de ordem alfabética é Alex Fox.

Com um protagonista sem escrúpulos para conseguir o que quer, Primeiro as Damas aproveita muito bem o cinismo de Damien para gerar várias piadas muito certeiras. Os diálogos são inteligentes ao trazer o machismo estrutural para reflexão. Depois da reunião de trabalho para a qual Alex é chamada – sofrendo  uma série de episódios de mansplaining e manterrupting no processo, naturalmente – ocorre uma briga entre ela e Damien, que resulta em um acidente em que ele bate a cabeça num poste. Esta gag clássica se torna o ponto de virada da trama, a partir do qual ele acorda em um mundo completamente diferente, onde as mulheres dominam os cargos de liderança. Nessa realidade alternativa, Alex é CEO da empresa. 

A ambientação dessa nova realidade não poderia ser mais hilária, com representações femininas como destaque na mídia e homens hipersexualizados na maioria das publicidades existentes na cidade, homens sendo assediados com elogios à aparência nas ruas, palavrões com termos pejorativos para homens, mulheres com comportamentos e figurinos masculinizados e homens com comportamentos e estilos mais femininos, etc. Dentro da empresa, Damien passa pelo mesmo processo que Alex passara. A crítica social é absolutamente clara e o desenvolvimento narrativo preciso e competente nessa proposta, fazendo o protagonista migrar de privilegiado a minoria, encaminhando-o para um processo de conscientização e redenção. Pode-se, inclusive, dizer que há todo um subgênero nesse estilo: as comédias de redenção fantásticas –, tal qual Feitiço do Tempo, Todo Poderoso, Click e, claro, o tematicamente similar Do Que as Mulheres Gostam. 

O figurino se destaca Primeiro as Damas destacando a caracterização das novas versões de cada personagem, com direito a uma mudança de estilo do próprio Damien para se adequar aos padrões dessa sociedade. No contexto em questão, o matriarcado é abordado não como uma resposta pertinente a um patriarcado anterior,  e sim dentro de uma realidade em que ele sempre foi presente, e, portanto, propiciador de opressão e desigualdade. 

Os costumes e as referências dessa realidade são bem pontuadas e representadas, e o filme consegue passar até pelos momentos mais tensos – como o assédio sexual do qual Damien é vítima, por parte de sua chefe com sagacidade, sabendo aproveitar as ironias em prol do humor. 

É bem verdade que Primeiro as Damas não chega a ter muitos momentos memoráveis, mas consegue transmitir bem sua mensagem, de forma tão simples quanto inteligente. Há uma boa química entre Rosamund Pike e Sacha Baron Cohen, e o filme flerta com a comédia romântica de uma forma  satisfatória. Com atuações competentes (não é uma das atuações mais marcantes de  Sacha), uma cenografia interessante e uma vibe Sessão da Tarde. É um bom programa com comentários sociais importantíssimos para um mundo tão machista como o nosso.