Em Paper Tiger, James Gray combina um drama familiar com a busca pelo sonho americano, tendo como obstáculo a máfia russa. O resultado é um filme de ambientação, com uma mise-en-scène que te suga para dentro da narrativa, tornando palpável a ansiedade social de Irwin (Miles Teller) e sua família.
Ambientado em 1986, acompanhamos o relacionamento entre dois irmãos que são opostos. De um lado temos Irwin, um pai de família honesto, dócil, passivo que nos é apresentado primeiro. Por outro lado, há o irmão Gary (Adam Driver), a quem ele e seus dois filhos admiram. O sujeito é um ex-policial, divorciado, mas que conseguiu se estabelecer financeiramente. Um belo dia, ele aparece para jantar com Irwin e sua família, propondo uma parceria que pode ser, finalmente, a chance do irmão mais novo enriquecer. Os dois entram em um esquema financeiro que os aprisiona à máfia russa.
O drama familiar é o grande centro de Paper Tiger: os esquemas fraudulentos da máfia podem servir como motor para que a história avance e atole os protagonistas no lamaçal em que suas vidas estacionam, no entanto isso só é possível devido a dinâmica que existe entre os irmãos Pearl. O roteiro de James Gray funciona como uma boneca russa matriosca, dividido em várias camadas interligadas entre si e alimentadas pelo sonho americano, a corrupção e o trauma familiar.
Dessa forma, a compreensão da dinâmica entre os Pearl é importante: Gary é engraçado, popular, consegue se sair de qualquer situação e tem condições materiais que seu irmão que mora no subúrbio com a esposa e os dois filhos não possui. Adam Driver empresta a ele maneirismos no jeito de falar, caminhar e se portar que alternam entre o estar relaxado, ser o rei do pedaço e prestar atenção ao que acontece ao seu redor. Como se tivesse constantemente sobre o domínio da situação. Não é difícil entender por que ele é o ídolo do irmão que o enxerga como o Midas: aquele que tem sucesso em tudo o que se propõe a fazer. Por isso, Irwin confia cegamente em Gary e na moral que este aparenta ter. Nesse tipo de relação, quando a decepção chega, ela age como um tsunami abalando toda a estrutura familiar.
O curioso é que Irwin está sempre eclipsado pelo irmão, dado que ele mesmo não consegue se enxergar como se eles estivessem no mesmo nível. Essa percepção nos conduz a visualizá-lo como alguém inseguro e iludido com o pouco que Gary lhe oferece. Confesso que senti um pouco de vergonha alheia enquanto o personagem de Teller se afundava nos esquemas corruptos por acreditar piamente que o irmão jamais seria alguém desonesto.
O roteiro discute dessa forma duas possibilidades de masculinidade dominante, uma agressiva e persuasiva em contraponto a outra gentil e branda, por vezes identificada como fraca. A forma como a narrativa é contada induz para que percebamos como essas duas trajetórias soam uma espécie de legado familiar, considerando os olhares atentos dos filhos de Irwin e como esses parecem replicar naturalmente e de forma imperceptível a relação que há entre o pai e o tio.
James Gray utiliza essas convenções, entretanto, para estruturar seus personagens e o núcleo fundamentado em Gary-Irwin-Hester (Scarlett Johansson) a fim de que o processo de descoberta da situação em que o personagem está inserido e sua decepção mergulhem a trama em um clima de paranoia e de suspense em que sabemos que algo ruim ocorrerá com o lado mais fraco da corda.
Toda a atmosfera criada por esse assunto familiar abre espaço para um filme de suspense no qual cada passo dos personagens centrais está sendo observado por alguém que pode fazer-lhes o mal quando menos se espera e este é um dos grandes trunfos do roteiro e direção de Paper Tiger. Nessa equação, no entanto, quem sofre é a única personagem feminina estruturada na trama, que exerce um papel invisibilizado e marginalizado.
Hester parece estar por fora de tudo o que acontece com sua família, vivendo seu próprio drama a ponto de me indagar se ela teria relevância ou não para a história apresentada. O roteiro até encontra uma saída ao longo do terceiro ato que tenta justificar sua situação, mas, honestamente, serve apenas como motivador para a belíssima e tensa cena no milharal, em que vemos magistralmente e visualmente como tensão, causa e consequência podem explodir ao mesmo tempo.
Paper Tiger é um mergulho nos filmes de máfia submerso num drama familiar que cresce quando olha para os homens dessa família e explora-os individualmente e como coletivo. Uma reflexão de como o sonho americano também pode destruir aqueles que se entorpecem dele.













